Amir Klink

"Um homem precisa de viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens ou TV. Precisa de viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio tecto. Um homem precisa de viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver." Amir Klink















segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Dia 25. Vento violento!

Hoje (tal como ontem) participei na missa dos peregrinos às 7 da manhã. Desta vez aprendi algo mais, talvez por ter prestado mais atenção. Le Puy é local de início de peregrinação desde o 10º século, pois perto do ano 950 está descrito nos registos de peregrinos em Santiago de Compostela. Todos os dias saem deste ponto gente de todas as nações: nestes 2 dias conheci gente da Alemanha, Canadá, Suíça, Quebec, Hungria, Noruega, Itália, Austrália, República Checa e naturalmente também de França. Mais tempo ficasse mais gente conheceria. No final da missa, a bênção diante da estátua de Santiago.




Voltei ao albergue e enquanto me despedia de Lucy, Rita e Alfred vi um guia do caminho e fiz uma pequena pesquisa. Reparei que os preços disparavam de uma localidade para outra e decidi ir à sacristia para comprar um, pois numa noite num sítio caro gastava mais que o preço do guia. Como a sacristia estava fechada e só abria meia hora depois aproveitei para fazer uma alteração que à muito andava a prever: os travões da bike não estavam a funcionar nada de jeito e puxando pelos princípios básicos da física vi que talvez estivesse a afinar mal. Troquei tudo e… uau, funcionou! Comprei o guia e segui marcha. Uns kms mais à frente encontro um casal de noruegueses por quem eu tiro o chapéu: deviam ter à volta de 65 anos e lá iam eles de mochila às costas... adoro a maneira de viver e pensar dos países nórdicos!

Como os trilhos estavam muito duros voltei-me para as estradas e, meu Deus, sem a protecção das árvores qualquer recta era pior que subir... ui! Esta etapa estava cheia de subidas contra o vento. Ora vejam: no total do dia (à semelhança de quinta-feira) fiz 100kms. De Le Puy a 650 metros fui aos 1150, voltei aos 600, de novo aos 1300 e terminei nos 1000, sem contar com as subidas de 100 e 200 metros. Isto só para verem a irregularidade do terreno e perceberem porque é que eu até aqui tenho dito às vezes que a etapa é fácil e esta não...

Bem, voltando, depois de muito esforço lá parei para a merecida refeição e aqui gastei a última lata de conserva oferecida pelo padre Olivier de Lausanne. Depois, enquanto estava a escrever algo, aparece-me Michael, o rapaz alemão que me levou ao albergue e que saiu um dia antes de mim. He he, alegria! Um grande abraço logo, porque por acaso fazia questão de o encontrar. Houve logo chocolate aberto e tudo! Falámos um pouco, ele do modo de viajar e dos 15 kg que perdeu desde que começou. Ao que parece, se eu me privo de luxos ele (embora aparente muito bem) priva-se ainda mais. Trás consigo uma tenda e dorme maior parte das vezes na rua, lava a “casa” nos fontanários e a roupa nos rios, enfim, mesmo no limite das necessidades. Cinco estrelas mesmo! Quem sabe não vá com ele à América doSul fazer uma travessia também!

Continuei e o céu tapou. Como tinha estado algum tempo na conversa e queria compensar fui rápido por caminhos, alguns de terra com os alforges sempre a quererem saltar fora. Valeu uma segurança que lhes criei, se não andavam sempre a rebolar. Também me lembrei da pintura de ontem, acho que vou comprar uma aguarela e dar um jeito naquilo. Qualquer pessoa se treinar algo melhora e pode ser que resulte... Enquanto isto tudo era o vento sempre a travar onde não havia árvores. Lembrei-me que hoje tinha visto o primeiro parque eólico desde que saí de casa... curioso, Itália não tinha um único!

Acabei o dia em Aumont-Aubrac. Como faltava apenas meia hora para fechar o supermercado fui rápido arranjar onde dormir. Quando voltei às compras parei na igreja e acho que vi a surpresa que Deus tinha para mim: um senhor perguntou-me se já tinha onde dormir e só mais tarde (no Gite onde paguei 12 euros) é que vi no guia como funcionavam os alberges e que aqui havia um...

O jantar foi uma deliciosa mistura que saiu óptima: pasta cozida com uma sopa instantânea de tomate com um decilitro de leite, salsichas e ervilhas com cenoura. Uma delícia mesmo!

Um abraço peregrino,
Samuel Santos!

Dia 24. Le Puy-en Velais!

Sexta, 8 de Outubro de 2010.


Após uma noite sinfonica de "every kind of noises" como mais tarde me disse Ally, acordei naturalmente com o barulho do chão de madeira que rangia cada vez que alguém de mexia... Eram 6 da manhã e após um pouco de ronha lá me levantei pois o pequeno-almoço era às 6:30. Quem partia já tinha tudo preparado para seguir logo após a missa dos peregrinos às 07:00, rezada nas línguas de todos os participantes. Eu traduzi a parte final para português, em que pedia ao Senhor e a São Tiago que nos protegesse e nos providenciasse uma boa viagem.



De regresso ao gite falo com Ally, uma rapariga da Ucrânia que vivia no Canadá e que estava a viajar por 9 meses. Tinha apenas 9 dias para visitar Espanha. Embora quisesse fazer o caminho a pé não tinha tempo e após a conversa que tínhamos tido na noite anterior decidiu seguir para Barcelona, depois Madrid, Sevilha e Faro, onde facilmente voaria para Londres, deixando para uma próxima as cidades do caminho de Santiago. Acompanhei-a à estação de autocarros, pois no albergue iria ter todo o dia para descansar antes de visitar esta acolhedora cidade. Falámos bastante sobre viagens: ela vinha do Japão, Banguecoque, Índia... tinha histórias fantásticas, muita experiência de viver em viagem, tanta que fazia dela uma pessoa simples mas muito agradável. Um pouco antes de partir, deixei-a na estação e fui visitar a cidade.

O museu e o hotel de ville, de seguida a exposição de fotos na galeria de turismo onde encontrei o padre que tinha presidido a missa de manhã. Reconheceu-me e conversei com ele um pouco… Estava encantado e curioso dos porquês desta viagem. Disse-lhe que tenho sido um felizardo com todas as surpresas e pessoas que tenho encontrado ao longo do caminho, e pela saúde que tenho. Acrescentei que viajo sozinho, que suporto e gosto da solidão e que maioria das pessoas que se preparam só fisicamente podem não conseguir. Tenho feito como me contou Françoise em Valencogne: se a a alma não fraquejar teremos sempre força para continuar, como que o santo espírito entrasse pela alma e desse força ao corpo. Recordando o meu tio Armando disse-lhe “-Não dê Deus ao corpo aquilo que ele aguenta”. O padre concordou e quando no final lhe perguntei o nome ele respondeu "- Henry Brincard, Bispo de Le Puy. Gostei muito de falar consigo.". Também eu, eminência!

De seguida baixei até ao centro para comprar almoço e o mais engraçado foi a senhora do supermercado ter dito "- Hum, só produtos de marca branca… Esperto!" com um sorriso. Eu respondi que sou peregrino e todos dias faço assim. Quanto menos gastar por dia mais dias posso ter de férias, he he.
Voltei a subir e pensei: “ - Vou visitar a estátua da virgem. Será um sítio fantástico para comer!” Gastei 5 euros pela comida mais 3 pela monumental esplanada, mas valeu cada centimo. A estátua tem 150 anos, é feita de ferro e no interior pode-se subir numa escada em caracol e ir espreitando por umas pequenas janelas (como que escotilhas) e ver a enorme altura que ela mais o monte que a suporta tem. Do seu topo ao centro da cidade são 167 metros de desnível!



Por lá fiquei umas 3 horas a visitar, comer, escrever e uma novidade, desenhar! Pelo caminho tenho visto algumas exposições de pintura de aguarela em tela, eu não estava dotado de tanto material mas por aquilo que oiço dizer não é o material que faz o artista. Para mim um papel e uma caneta preta foi o suficiente para mais uma vez ter a certeza que eu definitivamente não sou artista...



Portanto pelo desenho que fiz tenho a dizer a quem sabe desenhar que vos admiro muito, pois tenho a certeza que até de olhos fechados fariam melhor do que eu! Tinha o modelo mesmo ali à frente e seria só copiar caso tivesse essa capacidade... mas não, e dificilmente fiz os racisbos que no fim apareceram. E tal como quem desenha bem tem uma virtude, eu tenho a sorte de ter saúde e resistência, que me porta por estes caminhos fora de uma forma não sofrida. Isso é uma razão para fazer o caminho como que agradecimento a Deus por essa capacidade! E vocês já agradeceram a vossa virtude ao Senhor?... Pensem nisto!



Um abraço peregrino,
Samuel Santos

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Dia 23. Manhã nevoeiro, tarde soalheiro!

Quinta, 7 de outubro de 2010.


Cedo abro os olhos e abro a janela. omo tinha reparado no cartão que os meus hospedeiros me tinham dado, não estava numa simples casa de quartos mas sim numa quinta pedagógica! Talvez pelo cansaço nem tinha visto bem que tudo era novo e a decoração muito gira. Pela janela entram os sons dos animais e vejo também que pouco se via para além dos limites das cercanias da casa devido ao forte nevoeiro.

Escrevi um pouco e o relógio chegou às 8:30, hora combinada para pequeno-almoço. Desci para o rés-de-chão e já lá estava a dona Joelle com a mesa posta, iogurtes, pão com manteiga e vários doces. Para terminar, café! Conversamos muito, embora ela me dissesse que neste dia excepcionalmente iriam sair para um passeio de barco no Rhone, com almoço em Lion. Quando o sr Hubert se juntou acabei por confessar que na noite antes, sem saber como nem porquê, fui encaminhado para aquele lugar. Tinha sido Deus como que a dizer: acredita, vai em frente! Na realidade aquele era um pedaço de paraíso que estava reservado para mim. Deles recebi uma prenda de cada um: dela um doce de figos óptimo para a viagem, dele uma oferta para acender uma vela à virgem quando chegasse a Le Puy- Acabei por ficar aqui quase gratuitamente e certamente que não esquecerei este local tão depressa. Na despedida, umas fotos e sigo pelo meio do nevoeiro direcção a Bourg Argental para retomar o caminho.

Logo ao início comecei a comer fruta da época: amoras para quem gosta. Uns 15 kms depois, já com o sol a brilhar no completo azul celeste, chego à cidade. Como me esqueci de pedir um carimbo na quinta, aqui procurei o Hotel de Vile (que para nós é a Câmara Municipal) para me fazerem o comprovativo da passagem por este sítio. Acabo por encontrar o mercado e após uma volta retomo o caminho. Já sabia que ia doer, dos 500 metros subo aos 1030 para a passagem do Col du Tracol por um vale.

Quando cheguei olho para trás e a vista era magnífica: o azul celeste apenas era rasgado por pequenos riscos dos aviões que passavam. Pensei que seria este o ponto mais alto e que daqui ia ser sempre a descer... estava bem enganado! Desço de maneira muito suave (como eu gosto) e uns fáceis 15 kms após, estava nos 700 metros. Como faltavam 5 minutos para a 1 da tarde, e eu tinha pensado que só almoçava depois das 13 continuei sem reparar no novo empeno que aí vinha. Em 3 km subo 250!

Baixo novamente aos 800 e encontro a vila de... onde visitei a igreja de Notre Dame que tinha uma exposição permanente nas laterais de quadros do século 16, impressionistas em tinta sobre talha.

Por aí almoço à porta do gite e continuo, em ligeira descida. Quando dou por mim a estrada departamental abre em auto-estrada sem proibição a bikes numa subida que me faz desesperar outra vez... Os carros passavam muito rápido e próximo mas eu não tinha outra saída. Chegado ao topo venço a altitude por 1 metro (1031) e aí sim, sempre a rolar até Le Puy.



Pensava eu que esta seria uma pequena vila mas reparo que uns 4 kms antes já havia comércio, depois as zonas residenciais e pela margem do rio passo a última barreira natural e vejo a cidade... uh lá lá, como dizem com frequência os franceses! Vejo uma enorme estátua num monte e a torre da catedral – tenho muito para ver antes de partir, pensei eu.



Mas como a experiência já manda, primeiro encontrar onde dormir. No centro da cidade aparece um rapaz que reparou no tau que trago ao peito e na bandeira portuguesa do alforge esquerdo. “-És peregrino?” - perguntou ele em inglês. Mark levou-me ao gite onde ele também estava albergado - era alemão e ia partir no dia seguinte com outros mais. Eu, pelo acolhimento que recebi, vi que aqui seria um bom sítio para fazer nova pausa. “-Aqui oferecem a sopa ao jantar e o pequeno-almoço, a missa é as 07:00” - explicou-me o senhor que me recebeu. Durante o jantar éramos 10 e pela primeira vez estava num grande grupo de peregrinos, metade alemães.

Um pouco de conversa e descanso numa noite cheia de ressonar... he he, acabou-se o descanso a partir de aqui pensei eu...

Um abraço peregrino,

Samuel Santos!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Dia 21. "Côte du Rhone"

Acordo pensando que estava a chover mas logo olho para a janela de telhado inclinado e vejo que o barulho é do vento. Embora sejam já 8 da manhã há pouca luz por o céu estar todo tapado por negras nuvens... o meu colega Sebastian acorda logo de seguida.Comemos qualquer coisa e fomos à recepção para entregar a chave, acabei por perguntar à rapariga se ela por acaso não tinha um guia para confirmar os outros albergues do caminho. Foi buscar um antigo mas que funcionou na perfeição, pois nem eu sabia o que o contacto que ele me deu me tinha reservado. Obrigado menina!
Sebastian esperou por mim e como ele ia ao macD..alds lá da zona acabei por ir também para postar mais uns dias no blog.


Conversa puxa conversa, saí stressado eram já 10.30h, sabendo que até Valencogne eram cento e alguns kms a somar aos 90 de ontem. Mas cedo perdi a pressa, o vento estava contra e o início tinha uma longa subida que dos 350 me levou aos 700 metros. Depois, do outro lado foi sempre a aproveitar a longa descida sempre a curvar, passando ao lado de pequenas aldeias com os espaços muito verdes e floresta densa até Seyssel, onde a 270 metros o caminho já era plano. Seguiram-se cerca e 5 kms a acompanhar um riacho que aqui se junta a um grande rio, o Rhone.

Seyssel era uma pequena cidade típica francesa com uma ponte histórica, as varandas das casas coloridas pelas flores, os pequenos comércios e as ruas principais limitadas ao trânsito. Não era muito grande e como estava a andar à pouco tempo decidi seguir e almoçar apenas uns kms depois, num parque desportivo à beira rio. Este espaço tinha vários equipamentos para as crianças e também um que nunca tinha visto: uma pista num formato de uma cápsula para bicicletas, com as curvas suavemente inclinadas até uns 45 graus como se vê nos jogos olímpicos, só que esta está a céu aberto e é em asfalto. No final sigo pelo vale e tinha julgado ter deixado o lago Léman para trás definitivamente, mas afinal estava agora a acompanhar o largo rio que daí nasce das águas jorradas em excesso.
Dei-me conta disso quando pelo caminho (para além de alguns sinais a indicar o caminho de santiago) havia outra placa que tinha uma bicicleta desenhada e que dizia "Du Léman au mer". Uau, o mar está a uns 500 kms! Este rio também é muito curioso para mim pois dá o nome a uma região demarcada de vinhos (como o título deste artigo). A piela que eu apanhei no início do ano aqui em França não me deixa esquecer este nome, he he... Mas esta história eu não conto... he he!

Nesta altura a altitude vai baixando muito lentamente mas a cada, talvez, 20 metros de desnível existe uma pequena barragem para produção eléctrica. Num pequeno espaço vi umas 4! " O Rhone ao serviço da nação" diziam na língua nativa as placas em bronze.Contínuo até Yennix, uma parte em que a montanha fecha e apenas cabe a estrada, como se tivesse rachado e aberto. Mesmo assim algumas partes foram abertas a broca e explosivos para que 2 camiões passassem.


Por essa zona é fácil identificar galerias no interior do maciço rochoso pois vêem-se as entradas, onde quem sabe na época do paleolitico viveram clãs inteiros de homo sapiens na sua luta pela sobrevivência. A pedra aparenta ser quebradiça sem sentido de clivagem mas de estratos bem definidos.  Esses estratos não estão na horizontal mas sim à meia esquadria. Pouco depois abre-se um pequeno vale, como que gasto pela água. Tendo em conta a altura média altura das laterais é até bastante largo e grande. Faz lembrar o grand canyon, mas com o Rhone no meio correndo fartas águas em baixo leito e largas margens.

Por aqui ando uns 20 kms sempre à cota numa ciclovia entre a estrada departamental e o rio. Nesta altura podia fazer tudo e pedalar ao mesmo tempo: liguei os fones, comi chocolate, tirei fotos... enfim, aqui não havia trânsito nem buracos!


Muito boa esta altura do dia, também por saber que o traçado original do caminho era recto e apenas subia um monte de uns 500 metros de desnível. Dei a volta ao monte para castigar a bicicleta que até agora não tem tido grande destaque por tão bem se estar a portar! Chego a Sant Genix a aproveito para fazer o meu primeiro levantamento de dinheiro, os 170 euros com que eu saí de Roma deram até aqui, salvo os 25 pelo par de calças novas e 10 francos suíços de compras antes de chegar a Lausanne para lanchar. Incrível não é?

Deste ponto a Valencogne foram uns 10 kms. Um pouco mais elevado por ter deixado o Rhone, vejo à esquerda grandes montanhas que deduzo que sejam os Alpes também, mas os franceses. A chegada a vila foi com uma grande subida e num ponto vi algo bizarro: um homem que parecia voar mas afinal estava apenas a brincar suspenso numa grua e fazer rir aqueles que deviam ser seus filhos. Na povoação a igreja era simples mas diferente no exterior: a parede era feita de argamassa com seixo rolado e no interior encontrei muita informação com pôsters do caminho de Santiago.


Procuro pela direcção que tinha e fui ter mesmo à porta de madame Françoise que dá albergue a peregrinos mas ficou muito espantada comigo. Primeiro porque era o primeiro português a aparecer por aqueles lados com o instinto peregrino e depois por vir de bicicleta! Foi mais uma agradável surpresa do caminho pois a madame Françoise tinha um anexo completo reservado para mim. Depois de alguma conversa muito agradável a tomar um café acabou por me convidar para jantar depois de tomar banho. Muito bom mesmo! Acabámos por ficar até quase à meia noite na conversa e a ver o blog.

Um abraço peregrino,
Samuel Santos!

Dia 20. Geneve...

Segunda, 4 de Outubro de 2010.

Acordo cedo e acabo de escrever o diário porque o sono no dia anterior não permitiu... quando dou por mim já quase passa uma hora. É incrível o tempo que se passa a recordar o dia que se passou, memórias essas que se vão convertendo em palavras... e tanto fica por dizer acreditem!

Quando saio uma coisa que tinha em mente era assim que encontrasse um supermercado da marca dos vales de compra parava, pois não sabia se eram locais ou se haviam mais até Genebra. Encontrei um passados 10 minutos quando ia a caminho da marina de Lausanne. Comprei 7 conservas de milho, legumes e atum, 4 tomates, um doce de morango e uma embalagem de 6 bolas de berlim com recheio a framboesa que estavam a metade do preço, he he!.. Quando cheguei à caixa diz um senhor atrás de mim “-Alimentação de desportista!” e eu acabei por lhe contar a viagem. A pagar sobraram 50 centímos de franco, voltei a entrar e trouxe mais um iogurte natural que foi devorado 2 horas depois com 2 bolas de berlim! Nem imaginam o contente que eu saí do supermercado, tinha a bicicleta bem mais pesada que o normal mas estava felicíssimo, obrigado padre Olivier!

O tempo estava coberto, um painel mostrava uns confortáveis 16 graus mas o dia prometia sol que não tardou a aparecer. Quando chego à marina tiro mais umas fotos com o lago a fumegar nevoeiro, mais uns comentários em português de um casal que ia passando...




Começo então a sério o caminho até ao destino de hoje, depois dos 125 km de ontem. Encontro junto ao lago um trilho em terra super divertido, sempre com este lago tão especial a 2 passos!


Especial porque quase se pode chamar um mar em forma de um amendoim ou de um C voltado para baixo, mas não tem maré, nota-se que a água tem um nível constante. Como diriam os meus amigos da Nazaré “um mar de senhoras”! Reparo que os franceses do outro lado (a sul do lago) devem viver cheios de inveja, pois este lado norte é muito mais prendado pelo calor do sol. Nota-se que o escarpado das montanhas do lado francês é tanto que deixa na penumbra maior parte da zona costeira.

Passo por cais cheios de veleiros e catamarans, uns grandes e outros pequenos mas por ali os lugares parecem estar todos preenchidos! Jardins à beira da água com gente na sua corrida matinal, zonas de habitação exclusivas... muito nível mesmo! Decido que já chegava deste tour e vou para uma nacional que por perto me acompanhava. Aí passo no centro das vilas cheias de comércio e gente, carros exóticos; Maseratis, Porches, Ferraris, Audis, Lotus, um excesso a meu ver mas é isso que faz mover o mundo da indústria...

Paro para almoçar numa outra marina atestada de barcos mas gente era coisa rara por ali. Um agradável jardim com mesas, equipamentos infantis e campo de futebol relvado tudo muito bem cuidado mais parecia que eu era o dono daquilo, pelo menos usufruí bem daquele calmíssimo espaço.


Estrada fora passo por kms e kms de mais vinha e para sobremesa... uvas, a fruta da época!
30 km mais a frente chego ao destino pensado inicial, Genebra! Entro por um jardim que começava no Museu da Ciência e daí já se avistava bem perto o majestoso jacto de água, um dos símbolos da cidade.


Pouco depois uma espécie de praia, nada má e quase me convencia a dar um mergulho mas tinha que procurar o essencial: onde dormir! Procuro o balcão das informações turísticas onde me deram um livro com os hotéis. Tentei 2 albergues da juventude e ambos estavam completos: mais de 400 camas com apenas 3 livres para raparigas e 2 quartos duplos que eu teria de pagar por completo... Para ajudar larga-se a chover...Visto o equipamento de novo pois para andar pelas cidades eu visto a roupa normal para não andar sempre armado em ciclista: Faço-me à chuva para ir tentar a sorte nalguma paróquia pois aqui não tinha informação de nada...

O dia já ia escurecendo e nada... até que comecei a sentir que se Genebra não tinha lugar para mim eu também não teria lugar para Genebra e embora contra os planos decidi seguir.

Continuei pelo traçando dos caminhos de santiago, pois desde Lausanne que deixei os de Roma por estes. Pelo caminho olhava para tudo, estufas, obras, estábulos enfim tudo onde desse para passar a noite. Uns 10 kms depois encontro um sinal a dizer que 5kms mais à frente havia um "gite d'etape" e todos os meus medos desapareceram.

Cheguei a Neydens, onde se localizava o abrigo, e descubro que é um parque de campismo! À chegada atendeu-me uma simpática rapariga e pelo espaço (num quarto de 6 camas) paguei 15 euros... nada mau, depois de em Genebra ver o mais barato por 60! Além disso reparei que sem me aperceber tinha deixado a Suíça por ela me estar a pedir o pagamento em euros. O local da fronteira (vi depois no GPS) era o local onde estava a tal placa.

O quarto era um águas-furtadas num edifício de madeira. No rés-de-chão tinha os espaços de sanitários, duche e lava loiça, tive pena de não ter tirado fotos...

Mais um momento de felicidade: água quente para lavar o que a chuva estava a sujar e um espaço quente com luz e cama para comer e dormir! Quando não temos muito até isto nos faz dar pulos de alegria... Acabei por me tratar e, enquanto escrevia umas linhas, adormeci. Acordei hora e meia depois (pelas 22 h) com a chegada de um rapaz, Sebastian, que na recepção me tinha dito que iria partilhar o quarto... Nem queiram imaginar: ele já vinha com um copito e pouco tempo depois perguntou-me se era servido... Uma garrafa de tinto Merlot, conversa puxa conversa (que ele não se calava), a garrafa foi-se com uma data de maçãs que ele também tinha e uma tablete de chocolate das minhas. "-Mange les pomes" dizia ele. Quando o relógio marcava 2 da manhã lá o consegui convencer a ir dormir, he he.

Um abraço,
Samuel Santos!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Dia 19. Ciau Itália!

Domingo, 3 de Outubro de 2010.
Ciau Itália! Embora o hospício fosse já na parte suíça a fronteira estava ali a 2 passos. Hoje deixei para trás esse histórico país. Adeus vilas históricas, adeus monumentos, adeus país onde virar à esquerda é coisa sinistra...(esquerda em Itália diz-se sinistra).

7 da manhã mais uma vez para oração e pequeno-almoço a seguir.


Mesmo assim hoje ainda me sentia cansado, sem energia e não sabia se isso era efeito da altitude ou do cansaço. Ao preparar as coisas para sair vejo que lá fora caiam uns pingos e não se via um palmo... pensei logo que não iria desfrutar da descida.

À despedida o padre Frederic disse que durante a noite a temperatura tinha descido um pouco abaixo dos zero graus (ele sabia, pois é ele que envia o relatório para o centro de previsão de tempo). Disse-me também que aquele nevoeiro era apenas local e que mal iniciasse a descida que passava. Despeço-me dos restantes conhecidos, visto-me como se fosse para a chuva e lá abandono eu este local divino.

Descida abaixo com o vento a favor desaparece o nevoeiro e rompe o sol num azul celeste completo, mesmo assim o equipamento impermeável dava jeito porque estava gelado em altitude. Chegado aos 1900 metros alcanço a saída do túnel e faço uns 8 kms sempre dentro de uma via coberta, como que um túnel para prevenir a neve. Quando saí havia o vento era fortíssimo a meu favor - cheguei a andar a 40 km/h sem notar o vento o que significava que ele se movia também a essa velocidade. Não me fiquei por aí pois cheguei a atingir os 70 km/h, se bem que, quando a estrada virava para trás devido ao desnível eu quase parava mesmo em descida com o vento de frente. Ia gelado, tinha que dar aos pedais enquanto descia mesmo sem desmultiplicação para aquela velocidade. Rapidamente fiz 20 kms e parei para comer chocolate suíço que tinha comprado na loja do hospício.

Contínuo serra abaixo e chego a um local onde me sentia no fundo de 2 abismos, tal inclinadas eram as 2 faces das montanhas à direita e à esquerda! Apenas cabia um riacho e a estrada às vezes, porque aqui e alí a passagem era em túnel.


Contínuo assim uns 10kms até que abre um pouco e nessa zona (uma espécie de T de abismos) havia uma vila de nome Sembrancher (vejam no google earth os abismos!). Contínuo até Martigny onde encontrei net para carregar o blog. Havia uma grande feira mas de entrada a pagar, decido dar uma volta e comer qualquer coisa. Encontrei um macDo...alds e lá fui eu tentar comer um burger só que não aceitavam pagamentos com cartão... bah! O primeiro impasse de moeda diferente e para ajudar o multibanco em frente não dava francos nem encontrei mais nenhum... Continuei e mais à frente rapei quase tudo o que tinha nos alforges.

Os abismos aqui afastavam-se um pouco mais e a descida continuava discreta. Apanhei uma valente boleia do vento que estava e tinha tempo para tirar montes de fotos (tal como na subida de Aosta) com o sol nas minhas costas - as imagem capturadas do meu telemóvel pareciam de uma máquina profissonal. Além disso ia observando a paisagem: as rochas tinham formações retorcidas tal a força a que tinham sido sujeitas aquando a sua formação. O vale ia abrindo até ter uns 4 kms de distância. A Suíça é considerada um país rico mas aqui também se cultiva: ao início kms e kms de milho, depois começaram as vinhas de deliciosas uvas que eu provei por não ter água, e os vinhos que tinha provado no hospício também eram muito bons mesmo! Um pouco depois encontro centenas de castanhas no chão e apanho algumas para tentar assá-las ao final do dia (onde descobri que eram amargas como tudo!)


Nesta altura já se via o fim do vale e o vento que tanto me empurrou agora estava a virar contra. Segui até Villeneuve onde começava o Lac Léman, ou como eu sempre disse para mais fácil identificar, o lago de Genebra, que fica na ponta oposta àquela onde me encontrava. A estrada leva-me à beira do lago e pelos passeios havia gente por todo lado. Aqui e ali ouvia-se falar português, gente de bicicleta, em patins e trotinetas, aquilo que para nós infelizmente é coisa de garotos aqui eram os adultos que utilizavam. Continuo sempre beira lago numa estrada marginal cheia de lojas, restaurantes... passava pelo centro de outras vilas e novos cais e zonas ribeirinhas, um regalo para a vista! Pelas ruas carros de grande cilindrada com alterações muito interessantes, viam-se mais topos de gama que utilitários. Como se diz em inglês "expensive toys" para adultos...



Cada vez que olho atrás tiro uma foto pois a vista é fabulosa: o lago com as enormes montanhas com neve nos picos e do lado oposto França, zona de Evian cuja água mineral é das mais caras que eu conheço. Chego a Lausanne (o meu ponto de chegada), dou uma volta e vejo a catedral. Numa praça abaixo a típica feira de velharias,como os franceses, os brocantes.


Mas rapidamente procuro o mais importante, onde dormir! Dirigo-me à paróquia de Santa Teresa onde ao bater à porta aparece um jovem padre um pouco espantado.Só depois percebi que ele estava de saída, quem acabou espantado fui eu no final com tanta hospitalidade! Levou-me às salas de catequese e aí fiquei com acesso à cozinha. Deixou-me tomar banho em sua casa casa e ofereceu-me pão, uvas, um queijo suíço, uma carne seca fatiada como presunto e um iogurte para além de vales de compras num supermercado no valor de 20 francos... enfim, obrigado padre Olivier! Disse-me que Samuel era o nome que sua mãe tinha pensado para si e disse também que este dia era o da festa da santa padroeira... mais uma coincidência! Levou-me à igreja e como estava um pouco apressado partiu. Eu voltei ao local que ele me tinha designado, jantei, lavei a roupa e descansei.
Um abraço peregrino,
Samuel Santos

domingo, 3 de outubro de 2010

Dia 18. "Hospice du Grand Sant Bernard"

Sábado, 2 de Outubro de 2010.

Como a hora de deitar foi cedo, a de levantar também pois havia uma oração às 7 horas a que eu queria participar. Após havia música celta para despertar os restantes pois o pequeno-almoço ia ser servido. Fico de novo ao lado dos meus colegas de quarto, Jean e Régis. Enquanto saboreava o delicioso pão integral com manteiga e um doce que não descobri de que frutas era, conversei com eles e descobri que eles estavam a passar a noite pois tinham feito um percurso pela montanha e hoje acabavam o circuito que os levava de volta a casa. Eu estava tão maravilhado com a ideia que lhes perguntei se poderia ir com eles e apanhar o autocarro de volta, ao que me responderam que sim e que numa bifurcação eles seguiriam e eu voltava ao local do início.

Após pedir autorização ao padre Frederic seguimos, pois tal como lhes tinha dito esta peregrinação não é apenas espiritual mas também cultural e a ideia de um percurso nos Alpes era algo brutal, como diria o meu amigo Moura! Trilhos acima as vistas eram únicas, pedras em cinza escuro reluzentes misturadas com terra preta e temperadas com neve! Os trilhos estavam todos marcados e por vezes tinham abismos que fariam qualquer um ter medo, mas nós continuávamos como se nada fosse até chegarmos ao topo. Por ironia do destino, sempre tinha falado nos 2700 metros de altitude e o hospício estava apenas a 2450 mas com esta caminhada alcancei esse nível!



Aqui avistavam-se muitos mais picos abaixo que acima, estava maravilhado com este enorme panorama! Tirei umas fotos e começamos a descida do lado oposto, este bem mais difícil, na sombra, com mais neve e trilhos mais estreitos e inclinados até chegar a um vale.


Descemos aos 2000 metros onde comemos algo e nos separámos: eu para voltar ao local de partida e eles por outras montanhas. Obrigado Régis e obrigado Jean, os meus amigos guias dos Alpes! Voltei ao hospício pela estrada milenar romana melhorada pelo Napoleão Bonaparte e só quando cheguei é que reparei que ao invés de fazer uma caminhada de recuperação tinha feito um pesado exercício mas estava de alma cheia. Falei com Frederic e como estava indeciso entre partir ou ficar (uma vez que já eram 14 horas) acabei por me sentir acolhido por mais um dia e fiquei neste local onde não só se adora a Deus mas também se nutre seus seguidores - esse é um dos lemas da ordem de Sant Bernard. Aqui os monges que vivem em contacto permanente com o mundo exterior mas oferecem a vida pela adoração a Deus e pelo acolhimento de todos, seguindo o exemplo do seu fundador que vivia de acordo com Santo Agostinho que pregou o evangelho no século 4.

Visitei o seu maravilhoso tesouro que tem objectos do próprio Sant Bernard, para além de outros em ouro decorativos e artísticos, um tesouro digno da obra do seu fundador. Passei o resto do dia reflectindo e dando graças ao Senhor por me ter permitido subir à montanha para descer ao fundo da minha alma.

Como colegas de quarto, uma família de férias com quem jantei e partilhei experiências, juntamente com outro casal. Ele era escultor e tinha feito várias peças oferecidas à ordem entre mais pessoas.

O site do hospício pode ser visto em www.gsbernard.net. Visitem, vale a pena!
O descanso veio depois...

Um abraço,

Samuel Santos.

Dia 17. "Col du Grand Sant Bernard".

Sexta, 1 de Outubro de 2010.

Acordo, mas desta vez com a sensação de estar em casa. Olho pela janela recordando que na noite anterior quase tinha pedido que chovesse bastante para ficar aqui mais um dia e dar ao corpo o descanso que ele tanto pede... mas estava sol! Como bem pois sei o que me espera e vou despedir-me de Grazziela à recepção e agradecer-lhe pela hospitalidade. De donativo entrego o que Paola me tinha dado na terça-feira (desde então que tenho dormido gratuitamente).

Faço-me ao caminho e rapidamente noto que algo estava diferente, tinha força mas pernas coisa que tanto tinha pedido a Deus no dia anterior... juntamente ao descanso, à alimentação e às massagens tinha de novo pernas para andar, embora a etapa de hoje ir rebentar com elas de novo. Fui subindo pouco a pouco, vendo os picos das montanhas rasgando nuvens e quanto mais subia... mais maravilhado estava, as casas iam começando a ter a arquitectura típica alpina com bonitos e coloridos jardins, e os vales eram cada vez mais profundos.

Uma hora o meia a pedalar depois chego a Saint-Oyen e como um chocolate ao lado de uma fonte cuja água era bem fresca e saborosa. Subindo um pouco mais reparo mas montanhas: aqui Deus foi caprichoso em demonstrar a sua capacidade artística, mas a nós homens, deu-nos a capacidade de poder escalar e contemplar a sua obra.



Mais acima Saint-Rhémy. Paro novamente para ingerir mais umas quantas calorias frente à igreja, da qual estavam a sair os habitantes. Entro no final para carimbar a credencial de peregrino e à entrada vejo uma fotografia de Lúcia e Francisco de Fátima. No interior, à conversa com um senhor e com o padre Rafaello confirmo que sim, a foto é de Fátima. Digo-lhes que vou passar por lá durante a peregrinação, explicaram-me que eram devotos a Nª. Sra.de Fátima e que este dia era o do santo padroeiro da aldeia... mais uma coincidência!Mas aqui ainda tinha apenas 1600 metros de altitude... tinha muito que subir ainda e continuei.

Aos 1800 metros vejo a entrada para o túnel que faz também de fronteira e pelo caminho acima, em curva contra curva, passam grupos de motos mas bicicletas nada... Encontro o refúgio que julgava ser o que Grazziela me tinha falado mas estava fechado. Aqui também alcanço o nível onde havia neve, embora pouca, mas via-se bastante mais no topo das montanhas. O próximo abrigo da lista ficava a 2450 metros de altitude, só quando chego ao topo é que o encontro. Estava aberto mas abandonado, com cozinha e camas. Confesso que pelo stress e pelo frio que se começava a sentir já não pensava nas melhores condições... os 2000mts de acumulado não perdoam embora o céu estivesse limpo.

Aqui a paisagem era magnífica... os picos mais elevados, que ao início pareciam altíssimos começaram a ficar só altos... depois estavam apenas um pouco acima... e aqui alguns deles já tinham sido superados! Mesmo assim ainda havia alguns a superar e com bastante neve.



O albergue, ou melhor o Hospício era um edifício cuja história é tão grande quanto o monte Grand Sant Bernard. Faz parte da ordem religiosa do santo que dá nome ao cume e foi inicialmente construído em 1050. Hoje alberga não só peregrinos mas também gente que passa e grupos que fazem retiros espirituais.


Nesta altura estava um grupo de seminaristas. Tal como me disse o jovem padre Frederic, uma das 4 pessoas que lá habitam permanentemente, "a porta está sempre aberta a todos e não tem fechadura", eu próprio confirmei! Fiquei numa camarata, na altura sozinho, tomei um duche e fui dar uma volta pelo local. Descubro que antes de construírem o refúgio a mando de Bernard, Arcebispo de Aosta, havia uma estrada romana que Napoleão no século 18 melhorou com os 46 mil homens que tinha nesta região. Os conhecidos cães São Bernardo são originários daqui. Mais tarde participo na missa, convidam-me a jantar e fiquei ao lado de 2 homens, que venho a descobrir ao deitar que eram colegas de camarata. Eram 20.30 h.

Um abraço peregrino,
Samuel Santos.

Dia 16. Até Aosta, o início da escalada a Grand San Bernard.

Quinta, 30 de Setembro de 2010.


4 da manhã, acordo de um sonho que me deixou pensativo... Mostrou-me (quase como numa mensagem) eu voltando a abrir o pequeno negócio que outrora tive, sorrindo de felicidade como nesse tempo vivia... levantei-me, fiquei acordado um tempo e voltei a deitar-me.

Pelas 08:00 nova chamada, preparar-me e sair. Logo em Donnas descubro uma rua histórica, sem negócios. O seu topo era um arco romano que datava em primeiro século – nessa zona ambas as escarpas quase se uniam e quando se voltaram a afastar descubro uma paisagem deslumbrante... um enorme e plano vale que chega a ter uns 3 kms de largura, sempre subindo muito discretamente. Quase que dá para imaginar o tempo em que certamente o mar chegava a este sítio e maré após maré ia tecendo este liso vale. Com o vento ligeiramente contra chegam-me aromas de pão acabado de cozer, juntamente com pizza e croissants... e não, não era imaginação por estar com fome.

Continuo a sentir-me fraco, como que tivesse a precisar de uns dias de repouso. A factura de ter ido a Milão estava a ser apresentada...Após muitas fotos, vários e diferentes caminhos por nacionais mistos de aldeias históricas vou-me encaminhando por este enorme vale dentro. Para se ter uma noção da importância e dimensão deste vale basta dizer que depois dos 20 kms que fiz ontem de Ivrea a Donnas, hoje fiz mais 60 até Aosta.

Já faz 80, mas pelos mapas que vi posso contar com pelo menos mais outros 60 até Courmayer e Mont Blanc, que faz fronteira com França. Diria um total de talvez 150 km de vale glaciar por estradas, confirmem no google earth.

Chego a Aosta e tudo é histórico romano, desde o início por séculos pós Cristo: um foro romano com um teatro e anfiteatro e debaixo da basílica um memorável cryptoportico, uma galeria já parcialmente soterrada mas de deixar qualquer um espantado pela dimensão do comprimento e número de arcos,. Não se parece com nada que tenha visto antes.

Paro para comer uma fatia de pizza junto ao grande Arco di Augusto, o do triunfo cá da zona mas uns bons séculos mais velho. Depois de restauradas as energias visito o resto da cidade. Pelas 17:00 horas vou até à paróquia de Saint Martin de Corleans para procurar onde descansar e preparar-me para a escalada que farei amanhã, se o tempo permitir. Encontrei uma senhora que me recebeu da melhor maneira possível. Dona Grazziela encaminhou-me para o local onde ia passar a noite e qual foi o meu espanto quando cheguei e vi que era um águas-furtadas como o meu apartamento, mas num pequeno estúdio com 2 camas, uma pequena cozinha e casa de banho... senti-me em casa! Hummmm, foi óptimo estar aqui na casa paroquial onde don Albino é o pároco. Pela noite devoro não apenas comida mas também os livros que este espaço tinha: acerca da via francigena, do vale Aosta e também de pintores e escultores famosos como Caravaggio, Michelangelo e Leonardo da Vinci. Escrevo estas palavras enquanto descanso e massago as pernas para o dia seguinte.

Um abraço,
Samuel Santos.

Dia 15. Alpes à vista!

Quarta, 29 de Setembro de 2010.


Oiço os sinos às 7 da manhã como se estivessem dentro do quarto e já não consigo dormir mais. Riou, o outro peregrino, levantou-se e num ápice estava pronto a sair - perguntei-lhe onde iria comer e como respondeu que ia a um café ofereci-lhe do que tinha: cereais com café ou cacau, pão com mel e bolachas... ele aceitou e escolheu os cereais. Ficamos um pouco mais na conversa até que descobri que ele já quase tinha chegado a Jerusalém e agora estava a fazer o mesmo que eu... mas a pé! Fazia da vida dele uma grande peregrinação (foi o que me pareceu) e ofereci-lhe casa quando ele chegasse a Fátima lá por alturas do Carnaval. Ele seguiu e de seguida segui eu, estrada fora ao sol mas com a temperatura baixa, talvez uns 10 graus.

Avisto no horizonte bem definida a silhueta alpina, tal como como se vê a Serra dos Candeeiros do Sítio da Nazaré. À minha frente, com uns 45 graus de inclinação a lua, que terá sido nova durante a noite e agora mostrava-se no imenso azul celeste. Começo a imaginar... Alpes à vista, é melhor poupar-me! Decido pedalar em ritmo de recuperação mas até isso me custou. Com o desgaste dos dias anteriores lá me fui arrastando planície fora.

Nos kms e kms de campos de arroz é época de colheita! As enormes debulhadoras, juntamente com o cheiro a palha cortada fazem-me recuar no tempo até à idade em que meu pai também tinha uma, mas de trigo.

À direita tal como na esquerda tenho noção que consigo ver os Alpes até longissímo... a calcular os kms que fiz desde a saída de Milão (e com a qualidade com que a atmosfera permitia ver) julgo que não será exagero contar com 250 km de cordilheira ao alcance da vista . Até porque aquilo que perto parecia só foi alcançado ao final do dia, com 70 km percorridos! Com algum esforço contínuo, mas sem razão aparente, pois a planimetria em terreno era tão perfeita quanto um espelho de água. Dou-me conta que por uns 200 kms não tive subida nenhuma que deixasse memória, talvez desde Piacencia.

Mais tarde venho a descobrir que a zona se chama "La pianura del riso".Cada vez que passa uma scooter por mim faz-me recordar quando andava de motorizada devido ao cheiro a óleo de mistura sintético que tantas vezes tenho sentido aqui desde o dia da minha chegada. Encontro uma loja de desporto e entro para comprar umas calças, pois as que tinha estavam a precisar de reforma...

Almoçei mais um pic-nic em Cavaglià e pouco depois encontro um lago, o Lago de Viverone com uns 2 kms de diâmetro, uma pequena marina e uma zona de lazer. Como o almoço não estava a fazer grande efeito parei para comer a sobremesa, pão com mel e café pois o meu problema podia ser falta de açúcar. Sigo até Ivrea, a cidade que eu considerei como a porta dos dos Alpes, já com os habituais 70 kms feitos. Dou uma pequena volta... a cidade era bonita, semelhante a algumas vilas que tinha passado, apenas se destacava o rio com as suas pontes porque em termos de centro histórico não era nada de especial. Encontro net num largo e aproveito para descansar enquanto carrego o blog com os arquivos e o facebook com fotos. Depois sigo, bebo uma cola para dar a energia que teimava em não aparecer.

Deixo a Região de Piemonte e Lombardia, entro na famosa Região Vale da Aosta, um vale glaciar! Aqui o cenário muda completamente, as escarpas de ambos os lados fazem-nos olhar tão para cima que faz doer o pescoço. Como na ilha da Madeira são cultivadas com vinha em socalcos. Entre as montanhas um vale entra pelo maciço aos S's, com um rio no centro e pequenas aldeias ora aqui ora acolá. Numa delas, Donnas, chego cedo com apenas 85 km mas decido procurar abrigo para mais uma noite e assim repousar para estar mais forte amanhã. Sou recebido por Don Ricardo, padre desta paróquia. Homem pouco dado a transmitir muitas emoções, percebi que ficou espantado comigo mas fiquei sem saber se foi por boas ou más razões... Ofereci-lhe o endereço do blog ao que ele agradeceu e disse consultar depois. Mensagem para Don Ricardo: se ler este artigo comente o que achou deste blog, obrigado.

A todos quantos tem enviado mensagens, obrigado, sabe sempre bem recebe-las. Eu vou respondendo com toques uma vez que o que se passa por aqui vou escrevendo.

Um abraço,
Samuel Santos