Amir Klink

"Um homem precisa de viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens ou TV. Precisa de viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio tecto. Um homem precisa de viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver." Amir Klink















terça-feira, 19 de outubro de 2010

Dia 34. Éramos 3!

Segunda, 18 de Outubro de 2010.


Desperto e mais uma vez aprecio este edifício, um grande rectângulo de paredes de pedra, com o elevado tecto em traves de madeira suportadas com belíssimas arcadas góticas!



Mas o aviso mais uma vez era de sair cedo e assim foi. Mas hoje estavam Julien e Maxim prontos para seguirmos em grupo e eu como tinha tempo de sobra segui com eles.
Bem dizia um dos espanhóis que lá fora estava 1 grau e mesmo com tudo vestido mesmo assim parecia pouco! De luzes ligadas seguimos estrada abaixo, despedindo-nos de todos os conhecidos que estavam no albergue, mas num passo sem pressa. Também, o esforço era quase nulo pela pendente ser favorável...



Como éramos 3 havia sempre motivo para parar: ou um tirava uma foto, ou outro mais um casaco e no final ficávamos a rir a olhar uns para ou outros com as cores do nascer do sol e seus raios rompendo as nuvens. O som dos pássaros também se fazia notar em destaque, como que pela alba a despertarem...

Kms e kms de agradável descida e já falávamos em encontrar um daqueles supermercados low-cost para comprar o pequeno-almoço. Só o encontrámos em Pamplona, e comprei comida a condizer com a idéia que tinha de pequeno-almoço. O relógio não perdoa e entre chegar ao centro da cidade e começar a comer era meio dia! O meu (pequeno) almoço foi um iogurte de meio kilo com bananas das canárias e laranjas (a fruta foi um extra encontrado nas redondezas da loja).




Fizémos uma visita pela cidade e começámos a afastar-nos, desta vez pelo traçado original do caminho em vez de ser por alcatrão.



No início estava a ser divertido... Julien e Maxim com os seus 30 kgs de bagagem e eu com metade! Mas justifica-se, por eles trazerem muito mais coisas como tendas e sacos-cama mais confortáveis. Maxim tinha ainda um portátil, uma câmara fotográfica quase profissional e outra de filmar HD que utilizou para fazer um filme na descida. Mas o terreno foi ficando duro até que propus voltar ao alcatrão - era muito melhor para eles e estávamos a aproximar-nos de mais uma subida de uns 300 metros de altitude.



Passado o "Alto del Perdon" novamente 10 kms em alta velocidade: eu dei 72km/h e Maxim com alforges também na forquilha da frente deu 70! Chegamos a voar a Puente de la Reina e encontramos o albergue: 4 euros e ainda nos ofereceram medicamentos para as dores musculares, magnésio em comprimidos e partilhas para a garganta... uma recepção super!

Fomos novamente ao supermercado e eu deixei as castanhas ao lume, quando chegamos foi só come-las com cerveja... hum... Óptimo para recuperar dos facílimos 75 kms!



Mais conversa e entretanto jantar. Eu preparei uma massa que tínhamos comprado com atum, tomate, milho, cogumelos e macedónia. Foi até cair de lado com tanto comer, repetimos umas 5 vezes até acabar com tudo! Mas este não era um albergue normal, mais parecia uma colónia de férias pois havia vários grupos a jantar e alguns bem regados, lol!

Uma hora depois um belo café e a sala mantinha-se cheia de gente, aqui não haviam regras para dormir ou horas apagar a luz como em Roncesvalles e tantos outros sítios. Acabamos com os bolos e decidimos ir descansar.

Um abraço peregrino,

Samuel Santos!

Dia 33. Puerto de Cize.

Domingo, 17 de Outubro de 2010.


O aviso era claro: pequeno almoço as 6:30, e também no descritivo que nos tinham dado à chegada "sair cedo" eram as primeiras palavras, mas mesmo depois do pequeno-almoço (até as 7:30) ainda era de noite...

No dia anterior tinha falado com o meu pai por sms para tentar encontrá-lo em Pamplona na terça-feira. Como estava a apenas 150 kms a pressa era nula, a contrastar com a necessidade de repousar.

Aproveitei o tempo e fui à missa das 8:30 com Helmut. Foi fantástica pois era toda dita e cantada em basco e é algo surreal! As únicas palavras que eu entendi foi “Aleluia” e “Amén”, para além disso era um mero espectador a cumprir com a presença, e presenciando um espectáculo cantado pelos homens de forte voz que estavam na última fila, acompanhados pelo órgão de tubos.

De volta ao albergue bebi mais um café e despedi-me da madame Jenine, a "mãe" do albergue, que na noite antes me preparou o jantar à troca de um pão e um queijo que lhe trouxe do supermercado. Segui viagem... Pelo caminho ouviam-se as águas no riacho e o vento que fazia cair as folhas das árvores, e sentia-se também o barulho das carroças que por séculos aqui passaram.



O vale é diferente do Vale Glaciar de Aosta: este é mais estreito e as montanhas (embora mais pequenas) parecem mais altas por fecharam mais o campo de visão. As encostas são férteis e não estão nuas mas sim cravejadas de vegetação, e nas paredes de xisto postas à vista pelas máquinas que abriram a estrada vê-se o sentido ocasional das linhas da rocha. E em cada fenda brota verde! Aqui e ali uma pequena cascata, e segue a estrada suavemente mas em constante ritmo de subida. Como dizia num guia, numa inclinação calculada para o passo das mulas!



Mais um pouco de história do tal guia: no século 8 passou por aqui Carlos Magno, no 11º foi reconquistada aos mouros e o fenómeno da peregrinação a Santiago aumenta. Um dos vinte milagres atribuídos a este santo terá acontecido aqui, fazendo deste um lugar de passagem mítico.

No século 13 a cidade de Saint Jean Pied de Port aumenta bastante para receber a afluência de peregrinos e no sec.18 o lendário mapa de Cassini indica este como o segundo local mais fácil para transpor os Pirinéus. Um pouco mais tarde foi mandada construir a tal "carretera en zigzag con una pendiente adaptada al paso de las mulas".

Encontro castanhas e provo para ver se elas eram doces ou não. Pelo tamanho que tinham apanhei com facilidade mais de um kilo delas para partilhar com mais uma "botella de vino", depois conto...A meio da subida encontro novamente uma peregrina que vinha a pé da Alemanha com um carro de mão para trazer a bagagem. Muito exclusivo!



Para além disso, passo a fronteira mais uma vez sem me dar conta, pois não houve qualquer sinal que o indicasse.

Com a ajuda do vento e após umas 2 horas a pedalar, alcanço o topo "Puerto de Cize", nome muito parecido com outro que passei em Itália. A vista do vale fez desaparecer o cansaço, até porque sabia que pouco depois era o fim da etapa com apenas 30 kms. Rolei até Roncesvalles, onde encontrei o jovem belga que tinha saído mais cedo de bicicleta. Com ele almocei ao sol, coisa que do outro lado da montanha e da fronteira não havia. Enquanto esperávamos pela hora de abrir o albergue foram chegando os outros todos que vinham, e também Julian, que está a dar a volta ao mundo!

O albergue era fantástico, um pavilhão medieval todo em pedra, com o tecto alto em madeira e em todo ele 3 filas de 120 lugares em beliches com tudo à mistura. Ao princípio parecia estranho mas depois tornou-se muito acolhedor.

Às 19h nova missa, e como não há muito que fazer lá vou eu outra vez ...
Se a da manhã foi exclusiva, esta foi um concerto de órgão que me fez recordar o da igreja de Santo António dos Portugueses em Roma, com a bênção dos peregrinos no final em todas as línguas, incluindo uma que devia ser Inglês mas muito mau... he he!

De volta ao albergue foi a partilha de comida e de histórias de um grupinho que se fez. É bom ter boa companhia para compensar os dias de solidão!

Um abraço amigo,

Samuel Santos

domingo, 17 de outubro de 2010

Dia 32. Dia pequeno!

Sábado, 16 de Outubro de 2010.


Estava indeciso em fazer um caminho em direcção aquele que é mais frequente ou uma outra rota que passava a fronteira em Somport (direção a Jaca/Aragão), mas essa alternativa começava em Oloron e já estava para trás.

Aqui o caminho designa-se por Piemont e une Lourdes a Saint Jean Pied de Port, local escolhido por mim. Os Pirinéus são atlânticos e do país Basco.



Sigo até Mauléon onde compro algo para o almoço e vejo mais um mercado, grandes abóboras, coloridas flores, pão, doces e enormes rodas de queijo, tudo dos produtores, muito característico em França!

Eu que pensava que era tudo plano, mas eis que as montanhas começam e fechar e pumba, mais uma subida dos 200 metros até aos 500mts do Col de Ausquich com a carga que tinha comprado para almoçar... mas só me lembrei disso no topo! Mas ainda bem que comprei, pois onde parei para almoçar só haviam restaurantes.



Daí até Saint Jean Pied de Port foram apenas mais 15 kms a somar aos 40. Pela estrada encontrei Helmut, o alemão de Le Puy e de Conques, he he, grande festa! Com ele fui na conversa até ao albergue. Finalmente aqui se encontra um sítio com preço fixo mas baixo, nada de donativos bem definidos e ainda ofereciam o pequeno-almoço! Os meus parabéns aos “Amigos do caminho” desta vila.



Num pequeno passeio pela cidade reparei nas fortificações que a vila tinha. Esta zona era estratégica para França e transitou de posse umas quantas vezes para Espanha. Isto até os franceses no século 16 terem construído a cidadela dentro de vila já muralhada, e assim com o recurso a redutos a conseguiram manter até hoje.



No albergue vejo que no ano passado receberam 28 mil pessoas e apenas 220 eram portugueses... somos menos aqui que os japoneses! Alemães, franceses, espanhóis, israelitas, e uma koreana... como podem ver internacionalização aqui é coisa que sobra.

O jantar foi sopa, troca por ter comprado o pão e o queijo sem ter aceite nada em troca. Valeu a pena! Para acabar, uma bebida de tisanas que me foi levando aos poucos a vontade de estar acordado... amanhã vou só até ao outro lado da fronteira.
Um abraço,

Samuel Santos.
 

Dia 31. Porque estou triste?

Sexta, 15 de Outubro de 2010.


Não ouvi o despertador às 6:30h para ir à missa das 7h, e só acordei às 9h. Fiquei com pena porque tinha muita vontade de ir... o sr. Jean tinha-me dito que era um momento especial por ser na cripta da basílica do santuário.



Tomei o pequeno almoço e fui então conhecer um pouco mais da história do santuário. O local é belíssimo mas o meu sentimento não se enquadra: como peregrino aprecio mais as coisas simples e essenciais e aqui tudo é excessivamente belo e grandioso. Além disso, a contrastar com o silêncio desejado, algumas pessoas demonstram alguma incoerências neste local de culto. Parecia que estavam num parque temático! Eu também já comportei assim, mas só quando estava na Eurodisney... mas felizmente nem todas as pessoas são iguais. Pelo caminho encontrei inúmeros locais onde de joelhos sorri, aqui sinto-me triste.



Numa das igrejas do recinto, enorme mas quase vazia, estava um grupo de jovens a cantar acompanhados de viola e flauta. Aí fiquei um tempo até ficar em paz e só depois continuei a visita ao local.



Ia-me passando vários pensamentos pela cabeça... Estava na dúvida sobre ficar mais uma noite no centro de acolhimento que o colega de quarto me tinha recomendado por ser gratuito e muito bom (o centro Cité San Pierre). Fiz um exame ao meu interior e descobri que talvez fosse bom se não tivesse sido recebido como fui no dia anterior, e tivesse encontrado esse sítio ao acaso. Mas assim não, não me sentia bem aqui e não seria uma noite gratuita num acolhimento de um albergue mais bonito que me faria feliz... Decidi voltar ao albergue onde tinha deixado as coisas, recolher tudo e seguir!

Quando cheguei o sr Jean estava a terminar o seu almoço e conversei um pouco com ele - foi bom este momento para não partir daqui deste local com tanta carga negativa. Afinal de contas aquilo que sentia era comum em mais gente, e daí eu ter aceite o facto como condição típica do local. Ou talvez não fosse o momento certo para mim, tal como pensei mais tarde.

Quando parti de Roma disse a Mercedes que não iria chegar antes da visita do Papa (a 6 de Novembro) mas pelo evoluir do caminho estava a reparar que sim. Se tudo continuar como até aqui chegarei antes dessa data. Mas a confusão que se irá instalar sobre aquela cidade faz-me pensar 2 vezes... se chegar antes escapo-me para Finisterra ou Muxia, logo se verá.

Carreguei tudo e "au revoir" Lourdes, segui numa estrada direcção a Pau e após 30 fáceis kms de cota jusante do rio que divide o santuário virei Gan e aí doeu... sobe e desce constante e muito inclinado... uma hora e 15 kms depois lá consegui chegar ao vale plano que me levou para Oloron a 20 kms).

Quando cheguei já o posto de turismo estava fechado e na igreja não encontrei informação de albergue... solução: já com o sol quase posto fazer outros 20 km até Hôpital Saint-Blaise e aí sim tinha a certeza (por uns folhetos que vi) que tinha onde passar a noite. Aqui também foi plano mas sair de Lourdes às 15h e fazer 88 kms até as 17h deixa-me quase com a noção que Ele também ia a pedalar!

Acabei por chegar e encontrar a pequena aldeia, que deve ter apenas uns 15 edifícios. Vou à igreja que é património da Unesco, e faço uma pequena oração.



Aqui sim sinto-me feliz e de novo no Caminho de Santiago. Encontro uma informação para ligar para um número e bateria no tlm nada... valeram-me as pessoas que me disseram em que porta tinha que bater e lá cheguei ao pequeno, renovado e confortável local que me permitiu descansar uma noite mais.

Engraçado, neste local havia uma máquina de Vending com tudo a bons preços pois por perto não havia comércio.

Um abraço peregrino,

Samuel Santos
 

Dia 30. Chegada a Lourdes.

Quinta, 14 de Outubro de 2010.


Aceitei o convite dos sinos a despertar às 07:00. Tocavam como se estivessem no quarto e de facto pela janela viam-se as torres e toda a cobertura da bonita catedral de Auch.

Tomei o pequeno almoço e parti, mas ainda na cidade aproveito para rondar o mercado.

Na estrada vejo um peregrino e quando aproximo vejo que era o coitado do austríaco que já tinha 10 kms feitos... um verdadeiro atleta! Tirei uma foto e "-Dank u pizza!" dizia ele. He he, fui a salvação do homem!



O terreno aqui era de constantes altos e baixos mas o pior era mesmo o vento forte de caras durante toda a manhã, a juntar a alguma falta de energia...

O almoço foi num pequeno jardim em Rabastens que tinha uma estátua de Pyrèné. Reza a história que Pyrèné era a bela filha do rei local Bebryx no tempo de Heracles. Durante os ataques de Heracles escondeu-se nas montanhas vizinhas e foi morta pelos animais ferozes. Heracles ao passar pelas montanhas encontrou o seu corpo morto e organizou seu funeral. Em memória dela chamou Pirinéus as montanhas desta região.



Daqui virei para Tarbes e o vento melhorou um pouco pois ficou lateral. Daí até ao destino foi um pouco mais confortável.



Cheguei a Lourdes com 100 kms e tive o azar de ser mal recebido no santuário... Antes do recinto, como sinal de respeito, tirei o capacete e a segui a pé ao lado da bicicleta. Ia entrar no recinto para procurar o balcão de acolhimento de peregrinos quando o guarda de serviço (que me pareceu ter uma natural aptidão para pastor de rebanhos) simplesmente me dizia que bicicletas não, embora eu fosse a pé, e mandava-me calar...

Enfim, como não lhe conseguia perguntar onde era o balcão das informações, tal era a ignorância com que ele me tratava, cada vez que ele me mandava calar e virava costas eu voltava a entrar. Ele a dizer que chamava a polícia... por mim até podia chamar o padre que só me ajudava, pois com ele falaria bem melhor...

Bem, lá tive que dar a volta à situação e ele acabou por me dizer onde era o balcão que eu procurava. Tive a informação de um acolhimento dos Caminhos de Santiago mas quando o encontrei descobri que era particular e o donativo estava bem defenido... mas pronto, acabou por valer, pois o senhor ofereceu o jantar e o pequeno almoço seguinte.

Às 21h fui à procissão das velas. É incrível o número de pessoas e doentes que estavam a assistir, e este dia era um dia perfeitamente normal! Pelas minhas contas seriam cerca de 4000, mas poderiam ser mais, o que demonstra bem a afluência de pessoas de todo o mundo aqui.


De volta ao quarto, em paz fui descobrindo a história local pelos boletins de informação que lá estavam em muitas línguas menos na nossa. Até que chegou o dono da mochila do beliche ao lado de onde vinha um cheiro bem marcante...Era um jovem italiano um pouco perdido talvez, que de peregrino não tinha muito. Dizia que por falta de dinheiro para o comboio não podia ir até São Jean Pied de Port... Daahhh! Então que fosse a pé ou à boleia, pois mais 100 ou menos 100 kms até Santiago não faria a diferença. Tive que aproveitar o momento de ele ir ao wc para me enfiar no saco cama e cortar a desagradável conversa... encontramos de tudo pelo caminho...

Um abraço peregrino,

Samuel Santos.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Dia 29. Desvio a Lourdes

Quarta 13 de Outubro de 2010.

Hoje abusei um pouco, confesso, mas se o corpo não quis antes a alma respeita...

Eram 9 horas quando abro os olhos e finalmente me levanto, sim, porque já tinha acordado bem antes com uma peregrina que leva a medalha do mais forte ressonar! Ela levantou-se, depois Vivianne também, mas eu só queria dormir.



Vou tomar o pequeno almoço e como estava “preso” àquele local, comecei a trocar histórias com Vivianne. Houve uma que me deixou arrepiado: ela assistiu a um UFF (Undentified Flying Fenomenom – fenómeno voador não identificado). Foi o que eu lhe chamei à história que ela me contou em troca da minha do dia anterior...



Quando vou a reparar o meu relógio marcava 11:00 e tinha que continuar. Despedi-me de toda a gente e com Marie Noel (a hospedeira) fiz um bom negócio: troquei o meu guia de França pelo de Espanha, pois entretanto já me era inútil e no local onde o deixei acredito que seja bem mais utilizado pelos peregrinos. Despedi-me dela mas os seus olhos continuavam a brilhar, Ultreia dizia ela, um dia voltarás ao caminho pensei eu...

Saí de Moissac por uma via à cota de um canal paralelo ao rio Garrone.



Pouco depois o meu guia electrónico manda-me para a estrada, mas podia ter continuado por lá uns 10 kms mais. Na estrada aqui também plana encontro pomares de árvores que deviam ser noivas, pois estavam todas cobertas de um branco véu... Provavelmente para evitar que a queda de granizo estragasse a colheita.

Mais tarde uma fábrica de nuvens, uma central termo-eléctrica ou uma nuclear... aqui o mais certo!



Em Flamarens quando procurava um local para almoçar encontrei ao lado das ruínas da igreja duas mesas, uma já ocupada por uma belga que me convidou a sentar e conversar. No final, quando visito as ruínas, vejo que havia no interior um exclusivo atelier de arte com 2 homens a fazer peças de souvenir. Bem melhor assim que deixar o espaço entregue as ortigas!



Em Castet-Arrouy visitei mais uma igreja, mas esta no interior destacava-se não só pelos quadros em talha na parede mas também pela colecção de diferentes cadeiras que tinha.

Em Lecture iniciei o desvio para Lourdes, bem maior que o de Pisa ou Milão! A partir daqui estou entregue à sorte, pois não tenho quaisquer indicações, mapas, anotações ou dicas sequer... apenas preciso de dormir antes de chegar ao local pretendido. Segui, embora o corpo estivesse a meio gás. Seguem-se Florence e Auch, onde decido procurar sítio no posto de turismo por reparar que a cidade é grande. Logo na entrada encontro um peregrino que ao pescoço trazia um objecto de bijuteria muito utilizado pelos peregrinos, mas na mochila trazia uma concha como se fosse um chocalho, lol! Pergunto-lhe se ele tinha alguma informação porque apenas faltavam 10 minutos para as 18:00 e apercebo-me que ele não fala uma palavra de francês ou inglês nem qualquer outra senão alemão... disse-lhe por gestos que ia ao posto de turismo e despachei-me, pois lá saberiam dizer-me se havia algum acolhimento paroquial ou não. De facto havia! Procurei o velho e nada, mas quando estava à porta do perisbério paroquial ele aparece com outra senhora. Fomos acolhidos e despachei-me para ir às compras.



Como vi na cozinha que havia micro-ondas hoje a ementa era pizza congelada com água de São Martinho do Rhone, aquela especial. Estava a comer e aparece-me o mesmo velho austríaco... 73 anos, meio maluco, a dizer por gestos que tudo estava fechado tal como eu tinha reparado quando voltava. Acabei por meter mais pizzas a fazer e arranjar mais um copo e talheres para a estranha personagem. “-Dank a!” - assim agradeceu ele.

Um abraço peregrino,

Samuel Santos.

Dia 28. "Amor de talega"

Terça, 12 de Outubro de 2010.

Será que foi um sonho ontem? Dizem que o álcool faz alucinações mas eu não estava de ressaca... Só havia uma maneira de confirmar e sim, a câmara de ar "nova" estava no sítio onde a tinha deixado no dia anterior.

Depois do nutritivo pequeno almoço, mãos à obra na bicicleta, afinal de contas ela apenas estava a pedir o tempo de antena que tinha direito já que até aqui mal tenho falado nela, de tão bem que se tem portado. Para não recentar com ela decidi não exagerar na pressão e meter-me ao caminho - por algures haveria de comprar outra e aí sim voltava a meter-lhe os 60 psi de pressão para ela solar bem.

Saio da cidade mais uma vez no rio que me tem feito uma agradável companhia. Aqui o Lot corre num vale mais singelo e como que não sabendo por onde ir vai aos Ss pelo largo vale, como o rio Sena na zona de Rouen. Do outro vale avisto Calvignac, uma cidade montada sobre rocha, mais uma para explorar na net no final da viagem.

O vento aqui não mexia uma palha e o sol que desde a alba apareceu estava muito agradável, apenas umas nuvens como pães de açúcar no céu. A estrada era planissima à cota em dia, cheia de zonas escavadas na rocha e alguns túneis também. A bike sempre em talega. “Talega” para quem anda de bike é o prato grande do pedaleiro, aquele que permite andar numa velocidade maior e que se encostarmos nela barriga da perna ficamos tatuados a a óleo de corrente... ao que chamamos, “Amor de talega”. E esta foi uma etapa onde enquanto rolei, em apenas 2 ocasiões fui forçado a baixar a mudança.



50 confortáveis kms depois chego a Cáhors e compro a câmera juntamente ao almoço que fui comer na margem do Lot.



O centro histórico fica num grande U que o rio faz sendo apenas necessário fortificar uma pequena parte, mas sinceramente desta cidade não levo muito mais do que as belas pontes que tinha.



Vejo que Moissac estava a 60 kms e que facilmente chegaria lá e escolho este local para pernoitar. Digo adeus ao Lot e sigo.

Mais uma sinal de "vilas mais belas de França” e passo pela cidade mediaval de Lauzerte edificada só aos anos após o início do milênio passado num monte que tive que subir, mas valeu a pena!





Em Moissac, na casa de acolhimento do Carmel, fui recebido por uma madame que conhecia tantos dos carimbos que tinha que lhe perguntei se também tinha sido peregrina - só podia assim ser, pois só quem passa por uma experiência destas sabia o que ela mostrava saber.

Ao jantar encontro uma canadiana, Vivianne, que estava em Conques. Tinha vindo até aqui de comboio, pois por muito que ela queira fazer o caminho os pés dela não deixam. Acabei por fazer tanta comida que ia sobrar muito para o dia seguinte, por isso ofereci a toda a gente. Resultado: eu comi bem, mais 3 pessoas provaram e ainda sobrou almoço para amanhã!



Um abraço peregrino,

Samuel Santos!

Dia 27. Castanhas com vinho!

Dia 27. Castanhas com vinho!

Segunda, 11 de Outubro de 2010.

Cedo voltei áquele palco mágico em Conques para desta vez participar em mais uma missa de benção aos peregrinos. Na hora de partir a chuva miúdinha que caia não parava...Tive que me decidir a vestir o impermeável e seguir.






Para começar desço ao fim do vale a 270 metros, passo uma ponte romana muito antiga e estreita. Vi um carro a vir na direção dela para a atravessar e juro que pensei não ia caber, provavelmente até era proibido, mas não sei como lá conseguiu passar.



Pela subida até aos 600 metros novamente encontro mais um cenário coberto de castanheiros, o chão repleto de ouriços. Reparo na discreta graciosidade da natureza: os aguçados espinhos apenas se abrem quando a castanha está madura.

No alto visito uma pequena e solitária capela e faço uma oração em voz alta, sabendo que até quando vou em silêncio pelo caminho Ele me escuta e acompanha. Aqui a vista é rural e bastante verde e seria bem melhor caso não chovesse, mas mesmo assim o caminho só se faz caminhando, e assim vou progredindo.

Volto ao vale do lot, o caminho aqui anda às voltar mas já percebi que este rio me vai acompanhar por um tempo. Recordo-me de uma vila que não falei antes, Estaing que tinha na entrada uma placa a dizer "Uma das mais belas vilas de França". Vejam as fotos e deêm-me a vossa opinião.



Sigo pelo Lot e vou até Figeac onde chego com 50 km às 13:30. Vi um posto de macD...lds wifi e como eram horas do vitaminico pensei em comprar 3 euro burgers. Infelizmente aqui não havia essa promoção, acabei por usar a net e ir as comprar no "super barato" ao lado: iogurte com muesli e pão com presunto, vitaminha e proteína, he he.

Olho para o guia e decido ir até Cajarc pois aí só faltavam 25 km e era melhor tomar um banho quente para não adoecer. Só nessa altura a chuva deu tréguas mas ao chegar à vila escolhida algo trespassou o pneu e a câmera - parecia que um chuveiro de líquido anti-furo saltava da roda traseira... mesmo assim deu para chegar à igreja e procurar onde dormir. Tudo tem acontecido por alguma razão e eu aceitei aquele problema como um sinal para ficar nessa vila (afinal de contas apenas tinha 75 km, eram 16:30 e já estava seco... em condições normais teria continuado).

Tento reparar a câmera mas o furo era demasiado grande e por isso ao fim de 2 tentativas decido trocar pela suplente... O problema é que de tanto roçar no alforge as arestas do novelo que ela fazia estavam gastas... e rota! Ok, pensei eu, vou ao supermecado e compro outra... Não tinham! E na estação de serviço só tinham remendos! Estava perdido... Mesmo assim pensei em remendar os muitos furos da outra, caso outro plano estranho que eu estava a pensar não funcionasse. Dei entrada no albergue e decidi deixar a resolução para depois. Fui tratar-me com o quente banho para não apanhar nenhuma gripe e cortar as castanhas que trazia à dois dias para as meter num tacho com sal a assar. Para acompanhar vinho do supermercado, uma garrafa de água do "Rhone" (eh eh) com pão, presunto e mel. Que grande misturada, não? Certo é que a garrafa foi junto com as muitas, e repito, muitas castanhas fazendo este um jantar bem "sui generis".

O plano secreto veio depois... Como eu conheço um pouco de França não apenas pela experiência de motorista mas também pelas histórias do meu pai, sei que por aqui há pontos de recolha de resíduos para reciclagem e eu tinha visto um antes do furo. Pego em ferramenta e lá fui eu, a cambalear aos S's "tintos" à procura adivinhem de quê...

Após uns 3 kms na escuridão total chego ao espaço vedado e salto o portão, vou à zona de ferro velho e como se esperasse por mim uma velha bike com um dos pneu com pressão. Tiro-lhe o que precisava e volto a sair. Digo isto porque não foi um roubo, apenas me desenrasquei e evitei que uma câmara de ar fosse para a reciclagem quando ainda tinha muitos kms pela frente.

Quando salto o portão estava a chover um pouco mas olhando para o céu por cima de mim estava descoberto... Devia vir com o vento pois parou pouco depois, até que... uau!!! um clarão enorme na zona do triângulo de verão formado por Altair, Deneb e Vega, chama-me a atenção e vejo a maior estrela cadente de sempre em luminosidade! Não fez um risco longo mas sim carregado e como que se fosse desintegrando para os lados... mais um momento mágico! Fico ali de câmara de ar na não olhando o céu completamente apático...

Um abraço peregrino,

Samuel Santos!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Dia 26. Piano, Guitarra, Órgão e Flauta.

Domingo, 10 de Outubro de 2010.

Nem a janela de sotão que estava a meio metro da minha cara me acordou com a pouca luz que por aí entrava. Tinha que sair cedo, ou pelo menos por volta das 9:00, mas abusei um pouco. No pequeno almoço terminei o maravilhoso doce que Joelle me tinha dado na quinta feira... o que é bom não dura para sempre!

Iniciei a jornada numa zona de planalto, ruralismo profundo que me faria lembrar o Alentejo caso tivesse sol, mas este plano era acima da cota 1100. Uma brisa suave e fria tocava-me na parte anterior do ombro esquerdo, o que era confortável não só pela ajuda na progressão do terreno mas também por não ir a ouvir o ruído de vento mas orelhas. As nuvens acompanhavam a baixa altitude tanto que quando passei a estação de esquis do Col d'Abrac (a 1300 metros) o ambiente ficou de nevoeiro das nuvens. O vento aí gotejava tudo e tudo estava húmido. Depois uma valente descida - ficou o registo da velocidade máxima em 74 km/h! Rápido me distanciei das nuvens por baixar tanto e pela descida apanho castanhas. O casal húngaro que conheci em Le Puy disse-me que tinha apanhado umas que eram óptimas - estavam fechadas no ouriço que picava bastante, mas aprendi que com uma pisadela eles abriam e soltavam aquilo que eu queria. Almocei as sobras do jantar anterior por volta das 12:30. Já com 56 kms feitos entro no fabuloso vale do rio Lot, numa estrada pitoresca serpenteada pelo terreno. Tinha formações rochosas de xisto negro com clivagem definida e quando o deixo (passados 15 kms) subo um empeno de 350 metros em 4 kms.

Pela subida encontro castanhas maiores do que aquelas que trazia, eram do tamanho de pinhas!... mas não se iludam: as pinhas daqui é que são pequenas, he,he.



Subi de 250 a 700 metros onde encontrei um pequeno santuário de Nossa Senhora das Alturas e reparei que estava já a tocar nos 100 kms, mas ainda era cedo para parar num albergue que o guia me indicava. E depois, sem saber bem porquê, algo me chamava para Conques, 20 km depois. Chegado ao local que me chamava dou-me com a lindíssima aldeia de Visto, com uma enorme abadia onde estava a decorrer a festa da paróquia com procissão. Pensava que iria demorar e decidi tomar um banho rápido... eu a chegar e a procissão terminada há um par de minutos. Largou-se a chover e fiquei contente por me ter safado à chuva, que por todo o dia me tinha ameaçado. Os organizadores convidaram-me para jantar com o grupo da festa juntamente com outros peregrinos que cá também estavam e foi algo muito bom! Realmente aí percebi o porquê de tanta atracção por esta terra.






Uma das senhoras da festa pediu-me se podia ler na oração depois do jantar um texto em português, tal como outros de mais nacionalidades, e eu aceitei, mas o momento mágico veio depois... No mosteiro há meia luz, um concerto de piano pelo padre Jean… maravilhoso, deixou-me comovido. 15 minutos depois guitarra clássica tocada por quem sabia - há muito que não ouvia tão belas partituras tocadas em corda. Para terminar órgão de tubos com flauta... enfim, inesquecível a vila de Conques, a minha prenda do dia!

Um abraço a todos,

Samuel Santos!

Dia 25. Vento violento!

Hoje (tal como ontem) participei na missa dos peregrinos às 7 da manhã. Desta vez aprendi algo mais, talvez por ter prestado mais atenção. Le Puy é local de início de peregrinação desde o 10º século, pois perto do ano 950 está descrito nos registos de peregrinos em Santiago de Compostela. Todos os dias saem deste ponto gente de todas as nações: nestes 2 dias conheci gente da Alemanha, Canadá, Suíça, Quebec, Hungria, Noruega, Itália, Austrália, República Checa e naturalmente também de França. Mais tempo ficasse mais gente conheceria. No final da missa, a bênção diante da estátua de Santiago.




Voltei ao albergue e enquanto me despedia de Lucy, Rita e Alfred vi um guia do caminho e fiz uma pequena pesquisa. Reparei que os preços disparavam de uma localidade para outra e decidi ir à sacristia para comprar um, pois numa noite num sítio caro gastava mais que o preço do guia. Como a sacristia estava fechada e só abria meia hora depois aproveitei para fazer uma alteração que à muito andava a prever: os travões da bike não estavam a funcionar nada de jeito e puxando pelos princípios básicos da física vi que talvez estivesse a afinar mal. Troquei tudo e… uau, funcionou! Comprei o guia e segui marcha. Uns kms mais à frente encontro um casal de noruegueses por quem eu tiro o chapéu: deviam ter à volta de 65 anos e lá iam eles de mochila às costas... adoro a maneira de viver e pensar dos países nórdicos!

Como os trilhos estavam muito duros voltei-me para as estradas e, meu Deus, sem a protecção das árvores qualquer recta era pior que subir... ui! Esta etapa estava cheia de subidas contra o vento. Ora vejam: no total do dia (à semelhança de quinta-feira) fiz 100kms. De Le Puy a 650 metros fui aos 1150, voltei aos 600, de novo aos 1300 e terminei nos 1000, sem contar com as subidas de 100 e 200 metros. Isto só para verem a irregularidade do terreno e perceberem porque é que eu até aqui tenho dito às vezes que a etapa é fácil e esta não...

Bem, voltando, depois de muito esforço lá parei para a merecida refeição e aqui gastei a última lata de conserva oferecida pelo padre Olivier de Lausanne. Depois, enquanto estava a escrever algo, aparece-me Michael, o rapaz alemão que me levou ao albergue e que saiu um dia antes de mim. He he, alegria! Um grande abraço logo, porque por acaso fazia questão de o encontrar. Houve logo chocolate aberto e tudo! Falámos um pouco, ele do modo de viajar e dos 15 kg que perdeu desde que começou. Ao que parece, se eu me privo de luxos ele (embora aparente muito bem) priva-se ainda mais. Trás consigo uma tenda e dorme maior parte das vezes na rua, lava a “casa” nos fontanários e a roupa nos rios, enfim, mesmo no limite das necessidades. Cinco estrelas mesmo! Quem sabe não vá com ele à América doSul fazer uma travessia também!

Continuei e o céu tapou. Como tinha estado algum tempo na conversa e queria compensar fui rápido por caminhos, alguns de terra com os alforges sempre a quererem saltar fora. Valeu uma segurança que lhes criei, se não andavam sempre a rebolar. Também me lembrei da pintura de ontem, acho que vou comprar uma aguarela e dar um jeito naquilo. Qualquer pessoa se treinar algo melhora e pode ser que resulte... Enquanto isto tudo era o vento sempre a travar onde não havia árvores. Lembrei-me que hoje tinha visto o primeiro parque eólico desde que saí de casa... curioso, Itália não tinha um único!

Acabei o dia em Aumont-Aubrac. Como faltava apenas meia hora para fechar o supermercado fui rápido arranjar onde dormir. Quando voltei às compras parei na igreja e acho que vi a surpresa que Deus tinha para mim: um senhor perguntou-me se já tinha onde dormir e só mais tarde (no Gite onde paguei 12 euros) é que vi no guia como funcionavam os alberges e que aqui havia um...

O jantar foi uma deliciosa mistura que saiu óptima: pasta cozida com uma sopa instantânea de tomate com um decilitro de leite, salsichas e ervilhas com cenoura. Uma delícia mesmo!

Um abraço peregrino,
Samuel Santos!