Amir Klink

"Um homem precisa de viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens ou TV. Precisa de viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio tecto. Um homem precisa de viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver." Amir Klink















terça-feira, 16 de novembro de 2010

Dia 47. Pedalar de sol a sol numa tempestade parte 2… vento a favor!!!

Domingo, 31 de Outubro de 2010.


Nesta noite não barulho no quarto, já tinha saudades de estar sozinho como antes de entrar em Espanha estava maior parte dos dias.

A camarata estava apenas ocupada por mim e teve que ser o despertador a tocar para eu acordar, hoje, por coincidência da data da mudança de horário estava a acordar cedíssimo comparando com a hora portuguesa, com a hora de diferença de Espanha Portugal e a da mudança de horário eu estava com 2 horas de diferença com o mesmo período de sol que estava habituado.

Eram horas novas 6:30 da manha e o pequeno-almoço apenas era servido às 8:30, olhei pela janela e pensei, o vento hoje continua forte mas tenho um pressentimento que virou a meu favor, se no dia anterior estava sul de manha e oeste pela tarde com sorte viraria a norte e assim teria um dia de nortada, o termo utilizado para definir o habitual vento da nossa costa.

Fui á rua e sim, iupiii, estava norte o que iria dar uma grande ajuda durante o dia e pensei que tinha que aproveitar as horas de sol para fazer o máximo de kms em direcção ao destino.



Tal como me tinha dito no dia anterior, o responsável do albergue disponibilizou-se para me dispensar o pequeno-almoço, e tenho que aqui redobrar os agradecimentos ao Sr. Gaspar pois com a sua amabilidade e trabalho pude tomar um bom pequeno-almoço e ainda me ofereceu pão para comer pelo caminho.

Com tudo isto saí do albergue uma hora antes da hora anunciada para o pequeno-almoço.

Mas o dia era de uma negra tempestade, com tudo protegido com sacos de plástico mesmo dentro dos alforges que tinham protecção para a água, e eu com a capa plástica do costume meti-me ao caminho para fazer mais um dia, e este prometia fazer de mim um verdadeiro papa-léguas.

E juntou-se a facilidade de rolar com a vontade de fazer kms, pensei que iria aproveitar ao máximo este dia pois com vento a empurrar conseguia com facilidade andar a 30 km/h a direito.

O Porto que estava a 50 km de distância aproximava-se a uma velocidade estonteante comparando com o dia anterior, até mesmo nas subidas, puxava um pouco mais e fazia-as a 25 km/h descansando nas baixadas.

Pouco via nas laterais mas pela N13 as vilas que se vão cruzando fazem lembrar o Roberto Leal naquela musica um pouco folclórica “Pelos caminhos de Portugal”, são realmente nossas e muito tem de espírito para além da beleza. São igrejas forradas a azulejo em tons de azul, os telhados com beirado tão nosso, as casas com pequenos jardins e á direita como que um bem adquirido o Atlântico completamente em revolta.



Passo por um ciclista e digo-lhe “força”, passado uns 2 kms ao entrar para uma rotunda vi que vinha calado na minha roda mas sinceramente não o ajudava tanto como o vento me ajudava a mim, falei com ele e disse-lhe para ter cuidado a andar naquela direcção caso contrario ainda tinha que apanhar o comboio de volta para casa, he he, ele para mim a perguntar, “você é atleta e leva ai pesos nos sacos de lado para treinar???” he he, piadas, foi um colega por uns 10 minutos de conversa!!!

Antes do Porto, uns 5 kms caí mais um monumental peso de agua e como estava a passar debaixo de um viaduto deixei-me ficar por ai um pouco a comer algo, o dia estava mesmo feito mas a vontade de andar era tanta que nuns vídeos que gravei a meter conversa com uns funcionários da câmara que tentavam arranjar algo e deviam ter pensado que eu não devia de estar muito bem da cabeça… eram as vontades de chegar a casa.

Sigo para a Torre dos Clérigos para carimbar como ponto de passagem o Porto, a ultimas vezes que cá vim o homem conheceu-me e fiz questão de parar mas não era ele que estava desta vez, era sim uma senhora que quando lhe pedi para carimbar a credencial ela perguntou-me para quando era como se uma credencial do medico fosse… enfim, nisto também havia muita confusão pois o alarme estava a soar talvez por causa da trovoada.

Desço á zona ribeirinha e atravesso a histórica ponte “Dom Luís”, do lado de Gaia aprecio as entradas para as caves e no rio os barcos típicos do Douro.



Sigo a jusante até á foz e o cenário era assustador, as ondas quebravam nos morros fazendo géisers de alturas enormes de branca espuma que se ia acumulando formando uma enorme faixa junto ao areal em todo o comprimento da praia.

Já por aqui tinha passado e sabia que havia uma rede de comboio aqui, tinha que encontrar uma estação para almoçar ao abrigo do tempo e encontrei-a na Praia da Aguda com um painel de mosaico que me fez lembrar a estação de comboios de Aveiro, terra para onde segui após terminar.



Pela estrada N109 reparo que tudo me parecia familiar, a estética, o ordenamento, as igrejas… parece que a estrada tem vida própria e que influencia tudo aquilo que está ao seu redor pois de Espinho a Monte Real muitas são as povoações com os mesmos traços.

Mais uma paragem em Mira e á conversa com uns idosos que estavam a desfrutar do feriado aprendi que naquela zona á muitos anos chamavam burras às bicicletas pois quem as consertava eram os burreiros, foram apenas 15 minutos para descansar e almoçar pela 2ª vez, aqui era o meu objectivo do dia mas como tinha tempo e forças para chegar á Figueira da Foz continuei.



Liguei ao meu amigo Rui para lhe dizer que já estava por perto e pensei “será que depois de chegar á Figueira tenho forças para ir até Leiria…”, perguntei-lhe se me dava estadia e ele respondeu que sim e sinceramente dele não esperava outra resposta a não ser que estivesse ocupado.



Cheguei á Figueira da Foz e apenas tinha mais uma hora de sol, e 45 km mais até Leiria em cima dos 195 que já tinha… isto era uma loucura mas o esforço neste dia iria aliviar em muito o dia seguinte e segui.



Foram mais 2 horas mas valeu a pena o sacrifício, já me sentia em casa com amigos, já a falava da viagem em tom de recordação e ainda nem a tinha terminado, mesmo com o cansaço dos 240 kms que tinha feito estava muito feliz por estar tão perto de cumprir o objectivo. Quanto ao vento, alem de o perdoar ainda lhe agradeci a ajuda que neste dia me deu, só assim foi possível fazer uma maratona destas que durou mais de 9 horas sentado no selim da bicicleta.


Comemos, contamos histórias e combinamos no dia seguinte fazer a tirada final até Fátima e depois Alcobaça.



Um abraço amigo, Samuel Santos

sábado, 13 de novembro de 2010

Dia 46. Pedalar de sol a sol numa tempestade.

Sábado, 30 de Outubro de 2010.




Mais do mesmo quando acordei, chuva...Voltei a equipar tudo com sacos de plástico e fiz-me ao tempo, hoje pedi a Deus que pelo menos que não tivesse tantos problemas como no dia anterior.
Ao sair reparei mais uma vez que o albergue estava decorado com papéis em forma de abóboras e que aqui também se celebrava o Haloween.Embora eu me sentisse bem a bicicleta não ganhava velocidade, o vento hoje não podia estar mais de frente do que estava... e cada vez que começava a chover até custa lembrar, a bicicleta parava até mesmo nas descidas.


O esforço era tremendo, o meu medo era de me esgotar e não conseguir chegar na segunda-feira como tinha pensado, e muitas vezes me passou pela cabeça que teria que desistir.Demorei hora e meia a fazer os 25 km até Pontevedra e aí tive que tomar outro pequeno-almoço numa entrada de um prédio, não queria que me faltassem as forças e agora mais que no resto da viagem estava literalmente a deglutir comida e a converter calorias em kms, caso contrário vou-me mesmo abaixo.

Mais 20 kms e já eram meio-dia, pensei novamente que teria que desistir, as rajadas eram fortíssimas e ao que parece era em toda a costa atlântica, decidi parar para comprar pão e coc.-cola, acabei por almoçar num coreto de um jardim em Redondela.



Quando saí vi uma placa, Portugal a 35 km e isto parecia uma eternidade uma vez que eu apenas tinha 45 mas o tempo aqui deu algumas tréguas, o vento diminuiu um pouco e virou 45 graus a oeste deixando de estar tão de frente. Pouco a pouco lá fui insistindo tentando compensar em tempo a velocidade que não conseguia atingir.



Do mal o menos, a bicicleta estava de novo sem sinais de problemas, mesmo debaixo desta verdadeira tempestade tropical.Chego a um sítio onde a estrada nacional te transforma em auto-estrada, procurei com atenção e vi que não haviam sinais de proibição a bicicletas.Como não haviam alternativas para fazer, acabei por entrar e fazer os 10 kms que faltavam até à fronteira.



Aqui tinha que ter bastante cuidado, embora a berma fosse larga os carros passavam muito rápido e não queria ser colhido por nenhum. Finalmente com a fortaleza de Valença do outro lado do rio minho, passei a ponte desenhada por Eifel e aproveitei o facto de já ter rede nacional para dar a notícia à família que já tinha chegado ao nosso País.




Viro direção a oeste para descer pelas margens do rio Minho até Caminha, mas aqui o vento já tinha virado novamente para oeste e novamente iria estar de frente por outros 20 kms.Tal como tinha dito a alguns amigos meus que vinham a Portugal, assim que vi um super que vendia frango assado parei para comprar, he he que saudades, foi em Vila Nova de Cerveira e ao sair pensei vou até Caminha e lá como.



Ao chegar começei a procurar um local e teria que ser rápido pois estava a ver mais uma chuvada a aproximar-se, aproveitei um alpendre de um edifício dos correios mas só ao chegar reparei que estavam lá 2 bikes que pareciam ser de Maxim e Julien... eram um casal jovem Belga, Adrien e Sophie que com eles falei enquanto rasgava partes do frango acompanhado com são, bem vontade tinha!

Caiu uma tempestade de água, mesmo daquelas que até as estradas se tornam rios e enquanto esperávamos que passasse trocamos mail e moradas para que os receba em minha casa caso aceitassem o convite que lhes tinha feito.
Mais 50 kms tinha eu para fazer, dizia, e assim foi, segui e voltando novamente para sul o vento já não fazia tanto travão na bike e pouco a pouco já fui até Viana do Castelo e Esposende onde nos Bombeiros procurei dormida.



Ofereceram-me um café e disseram-me que o padre é que costumava acolher os peregrinos, mas que estava a iniciar a missa das 7 e não o encontrei antes da missa... pensei que não podia participar pois estava todo molhado e que pouco depois em Fão havia um Albergue da Juventude e que talvez fosse o melhor ir até lá.Apenas 5 kms depois estava na recepção e apercebi-me que estes albergues estão a representar dignamente o nosso mais nas rotas de peregrinação pois a recepção e ao nível de um hotel, com a apresentação do passaporte de peregrino tem-se 10% de desconto e os 9.90 euros que paguei incluía dormir em lençóis (alto luxo em relação aos saco-camas) e pequeno-almoço, para além de ter cozinha de alberguista. Dormi mais barato em Espanha nalguns sítios mas aqui o valor era bem merecido!

Durante a preparação do jantar aproveitei para fazer a mais para o dia seguinte e no compartimento das sobras comunitárias estavam várias coisas... um casal não reparou no pequeno letreiro e arrumou lá tudo como se não houvesse mais ninguém...Passado uns tempos entram eles a dizer que cheirava bem, era a pasta à carbonara que eles já tinham deixado... pedi desculpas e que lhes pagaria a embalagem se eles quisessem mas acabaram por não aceitar e a dizerem que eles próprios é que não tinham reparado na mensagem. Na sala de estar falava-se português, a televisão dava bola e política e pouco a pouco ia-me sentindo no meu país.



Um abraço peregrino, Samuel Santos!

Dia 45. Rumar a casa, 600 kms em 4 dias...

Sexta, 29 de Outubro de 2010.


Quando despertei estava convencido que alguém estava a tomar banho mas logo achei muito estranho pois isso pela manhã não era normal.Como segunda hipótese, a chuva prevista para este dia e quando espreitei pela janela pensei logo, vai ser duro regressar a casa...

Preparei tudo com sacos para que nada se molhasse e meti-me debaixo de água até ao cabo de Finisterra.Aqui sim o fim do caminho, fim do mundo no tempo romano onde para eles no seu império não conseguiam andar mais longe em direcção do sol, simplesmente acabava a terra e começava o mar.


O tempo era de tormenta alguma chuva, o mar estava calmo e todo aquele sítio era mágico.No albergue o aviso era claro para não queimar nada no farol como manda a tradição de queimar as botas, ouve um incêndio aqui por causa disso e até o monumento construído para a queima estava alterado para que não o fizessem, mas o problema foi alguém como muitos que queiraram no meio das rochas e provocou um incêndio que queimou uma grande área em torno do farol.



Também havia no albergue uma notícia que dizia "jovens arriscam a vida subindo a torre", existe uma antena metálica que estava cheia de botas, t-shirts, meias... tudo aquilo que se podia deixar aí como oferenda usada e gasta pelo caminho, essa antena tinha sido limpa e agora nada tinha.



O sentimento aí é forte, para além de um lugar temático a vista é linda, quase mar a 360 graus e com a tempestade que por aqui passava eu vibrava de emoções!Depois de muitas fotos pela chuva segui, e desde cedo que tinha que parar por tudo e por nada, afinar os travões, tirar os impermeáveis, tirar a luz para sinalizar a traseira... enfim por precaução parava constantemente.



Mas até aí tudo bem, 10 km depois o pneu que tanto trabalho tinha dado no dia anterior estava em baixo e eu a pensas que era o rasgo de novo... mas não, estava mesmo com um arame a fura-lo e com tanto furo já não havia líquido anti-furo para o tapar.
Remendei-o e segui debaixo de chuvadas que vinham umas após outras.




Tive que almoçar numa paragem de autocarro que estava de costas ao vento pois mais sítio nenhum se podia parar, pouco depois mais chuva... enfim já estava mais que mentalizado que seria o dia assim.Segui e em Negreira na mesma praça parei para ligar aos Javi de Bilbao e mandar uma mensagem a Maxim e Julien dizendo que não passaria por Santiago, havia uma estrada que atalhava uns 20 km e eu já estava atrasado... mal começei a andar o pneu de novo...Dei-lhe um jeito mas na estrada que apanhei havia um troço a descer com buracos e o pequeno rasgo tornou-se maior...





Toca de desmontar tudo de novo e trocar os pneus de traz para a frente para ver se com menos pressão aguentava.

Quando cheguei a Padron vi uma loja de bikes e pensei que talvez aguentasse, mas outro furo fez-me voltar atrás e comprar um pneu de estrada 1.5 para rolar bem e também comprei remendos.

Segui ate Caldas de Reis e com tanto tempo gasto por problemas fiquei por aqui mas o tempo que perdi tinha sido bastante, tanto que apenas fiz 110 kms e o objectivo de Pontevedra ficou a 25. Parei já quase era noite pensando que no dia seguinte teria que compensar aquilo que ficou por fazer.Finalmente aqui podia falar português, haviam peregrinos e também a hospedeira galega também entendia. Gosto muito da fala dos galegos é como se fosse um nortenho mas com algumas palavras em espanhol, engraçado mesmo.Depois de uma massagem às pernas para aguentarem mais um dia, deitei-me a repousar.




Um abraço peregrino, Samuel Santos!

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Dia 44. Muxia e Finisterra

Quinta 28 de Novembro de 2010.



Acordei cedo, com tanta gente pelo caminho queria ir cedo buscar a Compostela, para quem não sabe é o diploma de peregrino.

Quando já cheguei apenas tinha duas pessoas à minha frente, perguntei a que horas era a missa do peregrino e ao contrário do que pensava havia uma às 10.



Antes fui dar o abraço ao peregrino e mais uma vez a fila era diminuta, passei também pelo túmulo do apóstolo e a missa foi pouco depois.
No final fui-me sentar de novo no centro da praça e a minha segunda alma não parava de me chamar a atenção, tinha tentado abafar aquilo que me queria dizer no dia antes mas agora com todos os rituais cumpridos queria mais uma vez que eu fizesse contas... E tantas vezes tinha feito as contas no dia anterior que voltei a fazê-las com a agenda do telemóvel, eram 11.30h e tinha 4 dias e meio para fazer 700 kms!



Pensei, pensei, pensei... os sinais eram óbvios, se tudo tinha sido tão rápido era porque eu também tinha que sair rápido e assim foi, decidi ir buscar a bike para seguir para Muxia e Finisterra.Liguei a Genis para se encontrar comigo na Praça do Obradoiro para me despedir e segui.



A tarefa não era fácil mas os fins justificavam os meios, para além disso sentia que chegar a casa no feriado 1 de Novembro para estar com a família seria um prémio pelo qual teria que suar e sofrer, mesmo assim estava disposto a fazê-lo.Pela estrada o tempo foi abrindo do nevoeiro que estava em Santiago e a paisagem alterou,as caras, as falas e os cheiros não me eram estranhos como estivesse no nosso Portugal.



Estava na Galiza e ao contrário daquilo que se diz que é impossível fazer o caminho sem chuva certo é que não me tinha molhado por aqui.



Ao fim de 75 kms chego a Muxia, uma aldeia piscatória onde busquei o segundo diploma e visitei o Santuário de Nossa Senhora onde reza a história apareceu ao apóstolo numa barca de pedra que frente à igreja ainda permanece, a pedra de abalar.







Mais uma olhada para o lindíssimo panorama de mas e vila no miradouro com a vila de um lado e o mar do outro e volto à estrada, queria dormir em Finisterra.



 Até ao destino eram mais 35 kms em estradas que passavam em aldeias, secadores de milho, tratores velhos, pequenos campos de lavouro, sentia-me em casa.



O pneu que me tinha dado problemas no dia anterior estava de novo a dar sinal, o pequeno rasgo que tinha estava de novo a querer deixar sair a câmara de ar e se não parasse para meter um pedaço de plástico por dentro iria furar de novo.

Olhava para o relógio e para o céu, parecia que o por do sol não era para hoje não por falta de tempo mas pelas nuvens que se viam a oeste e decidi visitar o sítio pela manhã ao contrário da última vez que por aqui passei.
Cheguei ao albergue e garanti a estadia, não esgotou mas pouco faltou e pensei em usar a cozinha completa para fazer algo quente para variar.Fui às compras e massa com coxas de frango foi o escolhido, saiu bem e foi admirado por quem passava embora desta vez não tivesse clientes para comer, melhor que assim sobrou para o dia seguinte. Tinha o diário atrasado e tentei compensar um pouco, quanto mais se atrasa pior se escreve, mas mesmo assim ainda deu para pelo meio da escrita ir dar uma volta para ouvir e sentir um pouco do mar...




Um abraço amigo, Samuel Santos!

Dia 43. Ultreia! "Grito de chegada".

Quarta, 27 de Outubro de 2010.




Às 6.30 da manhã as luzes do quarto acenderam automaticamente mas a mim não incomodaram tanto como aos outros, só hora e meia depois voltei a acordar para o pequeno almoço em grupo.O pessoal foi saindo aos poucos e eu deixei-me ficar para tentar secar a roupa que no dia antes tinha deixado na máquina de secar, não é hábito pagar para isso mas por apenas um euro lavei à não e deixei na secadora.

Engraçado foi também a caçerola que os meus amigos tinham comprado acabaram por deixar no albergue mesmo sabendo que a iriam tirar de lá, de comida deixaram pão e madalenas, como fui o último a sair acabei por os levar.

Pela cidade encontrei as galegas que estavam numa pensão privada, não aguentavam o barulho dos outros nos albergues, e pelos cafés viam-se as mochilas de quem não se incomodava com a despesa do pequeno-almoço.

Sigo pelo "caminho" e logo de início muita gente, daqui até Santiago são apenas 90 km e é pouco menos do mínimo para obter o diploma no final.
O panorama estava lindissimo, nevoeiro cerrado na floresta com a humidade a bater na casa. Um dos grupos que passei diz-me um senhor que devia de ter uma campainha para avisar, mesmo tendo dito "bom dia" antes de os alcançar, respondi-lhe que é muito mais simpático diminuir a velocidade e falar como lhes fiz, no final, "buen camino" e segui.Pouco depois, o sol brilhava num céu azul e encontro os Javi, pensava que também tinham parado para um café. Enquanto os acompanhava olhei para trás e uau, o nevoeiro nos vales pareciam como que lagos de algodão doce pois a brancura contrastava com o resto.Como hoje o objectivo era gritar Ultreia no Monte do Gozo à chegada de Santiago como manda a tradição, segui a solo pois os colegas não chegariam ao meu destino neste dia.Algum tempo depois parei num bosque para aliviar... he he, e quando voltei a andar aparece-me Juan Julio de Murcia, um senhor pequeno mas com uma humildade do tamanho do mundo.Vinha num ritmo elevado mas com sinais de cansaço, tinha que chegar a Santiago cedo para comprar o bilhete do autocarro e mandar a bike por transportadora e como eu estava à vontade com o ritmo dele decidi acompanha-lo.



É bom ter companhia depois de tantos dias a solo, e no caso de Juan seria bom para ele não lhe fosse acontecer nada por causa do stress.Felicitou-me mais uma vez as castanhas do dia anterior e queria saber como se fazia, dizia que nunca tinha gostado delas até comer as minhas, que sorte tive eu com as castanhas por serem tão boas!Passamos em Melide e aqui a tradição é comer polvo numa tasca à beira do caminho, quando a vi parecia estar no México com a música e a decoração, mas nós seguimos pois eu tinha almoço e o meu colega queria algo rápido, nessa altura reparei que desde que saí de Roma nunca comi num restaurante.



Acabei por almoçar num parque de pic-nic à sombra enquanto Juan parou noutro tasco. Nesta zona o trilho transformou-se numa autêntica via para peregrinos pois é sempre larga e em óptimo estado de piso, e as pessoas que por aqui estavam a passar eram mais que coelhos como disse eu ao colega.



Pouco depois furei, o meu terceiro furo mas por uma razão estranha, o pneu rasgou um pouco na na lateral e a câmera furou a tocar no calço de travão, como Juan estava bem mandei-o seguir mas também comprar uma barra de chocolate para comer no caminho.Parei num largo e enquanto reparava a bike parou uma senhora ao pé de mim para almoçar, peregrina também, meteu conversa e disse-me que era de Lima, seu nome Ana Maria e foi mais uma pessoa que me encantou.



No final tirei com ela uma foto e segui, imensa gente mesmo, para quem chegava a passar horas sem abrir a boca agora tinha muito que dizer"buen camino"!Havia mesmo um exagero de gente, e gente exagerada também... algumas quando passava gritavam "bici" tão alto que até eu me assustava, parecia que eu os queria atropelar tão histerícas que gritavam mesmo estando ao lado delas a rolar à mesma velocidade qu elas.Gente de jeans, de óculos fashion, sem mochila sapatinhos de pele, havia de tudo, parecia que havia um pack turístico para fazer apenas alguns troços e assim devia de ser quanto mais perto me chegava de Santiago menos gente havia.E foi uns 15 km antes que alcanço de novo Juan que mantinha o mesmo ritmo de quando o tinha deixado e com ele fui até ao final.
Não sem antes parar no Monte do Gozo e gritar "Ultreia" como manda a tradição, é um grito de felicidade ao chegar à cidade destino. Daqui a vista não é tão bonita como a do Monte Mário em Roma, apenas se vê um pouco da cidade pois está longe e a descida não é muito inclinada.



Como Juan queria ir para a rodoviária comprar o bilhete de regresso levei-o até lá uma vez que sabia onde era, e combinei com ele para ir ter comigo frente à catedral porque queria comprar comida. Frente à catedral quase não se viam peregrinos, sentei-me mesmo no meio mas silêncio era coisa que não havia por estarem a preparar um palco para receber o Papa dia 6 de Novembro. Nem reparei mas chamei a atenção dos turistas que por ali passavam, não tardou a vir um a pedir se me podia tirar uma foto, estava eu a comer uns bolos com chocolate e doce de pêssego, era Português.



Logo após um Mexicano pediu-me a bicicleta emprestada para com ela tirar uma foto, no final dei-lhe o endereço do blog e disse-lhe para ir ver a história da bicicleta que ele tinha pegado, quando lhe contei que tinha de Roma ficou espantadíssimo.

Chegou Juan e fomos beber uma cerveja para a despedida, já tinha o bilhete e o despacho para a bike, no final um abraço de despedida e lá foi ele.Liguei a Genis para saber onde estava, fui ter com ele ao Seminário Menor onde jantamos juntos, a seguir saímos para uma volta pela cidade para ver o ambiente e voltamos para descansar.



Um abraço peregrino, Samuel Santos!

domingo, 7 de novembro de 2010

Dia 42. El Cebreiro.

Terça, 26 de Outubro de 2010.



O barulho no quarto começou cedo e por aquilo que ele me contou não tinha dormido nada pelo barulho que havia no quarto...Desci para o refeitório sem saber que horas eram e mesmo comendo devagar quando terminei ainda era noite,lua a brilhar ao máximo no céu limpo.Acompanhei André, Juan e Carmen até ao local em seu pequeno-almoço e aceitei o convite para o café, como queria fazer mais que eles deixei-os para trás, penso estar com eles de novo em Santiago.


A saída pelo vale era como tantos que até aqui passei, e lá apenas com o recurso à engenharia se conseguiu adicionar a auto-estrada do outro lado do rio, e mais nada para além disso e do verde havia.



Mais uma prova de castanhas e sim, as que tinha encontrado na estrada para além de grandes eram boas. Enquanto apanhava ouvia os outros ouriços a cair como se chovessem castanhas, também os chocalhos das vacas que por ali perto estavam.



Tirei o corta-vento pois embora estivesse gelado o sol já rompia o vale e a subida ao Cebreiro ia começar. Subitamente cheguei ao local onde se via bem a sinalização a avisar que as bikes deviam seguir pela estrada mas o caminho pedestre absorveu-me e por aí escolhi subir. Cedo descobri que quase certeza que por aí conseguiria subir pois havia bosta de vaca em todo trilho, certo que se passava uma vaca eu também passaria.



O trilho era estreito, com pedra rolada solta e xisto, e com uma inclinação que tornava impraticavel de o fazer, mas o dia ajudava muito nem que fosse pelo prazer do bom tempo para poder contemplar a beleza do sítio. Pela subida conheci um indiano e um coreano, estavam admirados de me ver ali e com eles fiquei um pouco a conversar.


Estava lindissima a paisagem, tudo verde como se estivesse no Gerês e os montes eram até perder de vista, fotos não faltaram! Ao chegar ao topo a 1200 metros de altitude. tentei escrever algo enquanto tomava umas bolachas mas chegam os 2 Javier de Bilbao que tinha visto no albergue anterior e conversa puxa conversa adicionei mais uns amigos no rol que desta viagem levo.

Com eles baixei de novo até Triacastela e aí almoçamos os 3 junto a uma pequena capela. Pelo caminho mais conversa, um deles levava toda a bagagem dos dois num carro adaptado para a bike e assim compensava a falta de treino do outro o mais engraçado era que quem não tinha bagagem era quem travava, mas gente 5 estrelas!


Fizemos tudo em estrada até Portomarin onde ficamos num albergue que tinha a cozinha completamente vazia sem uma colher sequer... sorte a minha ter a mini-caçarola de alumínio para meter as castanhas a assar pouco depois de chegar.



Deram para todos, e todos diziam que viam milhares mas não as apanhavam.Boas que estavam desapareceram todas, mas só eu comi 1/3 delas, logo a seguir já estavam os Javier a meter-me um prato de massa à frente para continuar na recuperação das energias perdidas, a caçerola tiveram que a comprar. Com mais 2 raparigas que chegaram o grupo ficou com 8 pessoas... momento espetacular todos no riso!



No final não nos chegava e embora o albergue fechasse às 22 acabamos por sair e deixar as janelas abertas e fomos descobrir a noite daquele local, acabamos por encontrar mais gente do albergue e copo puxa copo acabamos por regressar eram mais de 2. Óbvio que aquilo que devia ter escrito ficou por fazer e fiquei até altas horas da noite a tentar compensar.



Um abraço amigo, Samuel Santos.