Amir Klink

"Um homem precisa de viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens ou TV. Precisa de viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio tecto. Um homem precisa de viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver." Amir Klink















domingo, 6 de setembro de 2015

Dia 5, De Valença a Pontevedra, ~60km, O Pápa-Léguas.

   A hora não fugiu á regra e hoje por ter dormido numa silenciosa camarata estava com o merecido descanso feito. Levanto-me como todos já tinham feito, desço a cozinha ponho a conversa em dia e como normal sou eu quem fecho a porta do já vazio Albergue de nome São Teotónio lembrando o santo padroeiro nascido a 1082. 
   

   Tal como esperado entro na muralha, mesmo sendo domingo às ruas estão ainda vazias e deparo-me não só com a beleza do lugar mas também com o arquitectura maquiavélica deste forte fronteiriço, antecâmaras com janelas minúsculas juntos aos portões duplos que intimidariam qualquer invasor, e onde se nota que qualquer tentativa de invasão deixaria o inimigo muito mal tratado. 


   Desço e chego a ponte velha, construção de engenharia Eiffel, um tubo quadrado em vigas arrebitadas assente em 4 pilares de pedra, no piso inferior passam os carros e nas laterais uma passerelle para peões, por cima uma linha férrea. 


   Entro em Tuy e subo ao centro histórico, também de seu encanto mas mais vila que muralha. Visito umas quantas igrejas de rompante e sigo no caminho. 


   Vou passando alguns grupos de passada e etapas mais curtas até chegar a um bar familiar de nome "O Chiringo", plantado num jardim, a ideia como sempre seria de seguir mas ao ver que aí estavam alguns dos colegas mais comuns doí-me ao luxo de parar para  um café, carimbar a credencial e trocar dois dedos de conversa. O António, rapaz para a idade do meu pai, apareceu apenas no dia anterior mas pelo pausado falar e sabias palavras dava para ver que estava perante alguém com um pouco do conhecimento fora do geral, com ele fiquei um pouco mas como a minha etapa era longa segui. 



   Por motivos de conforto o traçado original do caminho foi alterado afim de tirar as pessoas de um longo complexo industrial, boa aposta uma vê que a paz do passeio compensava de longe o betão do antigo caminho, serpenteando um rio nos últimos km e terminando mesmo á porta do Albergue de O Porriño, onde maioria das pessoas ficavam e pelas 13:30 já tinha fila de espera.... 18 km estavam feitos e a minha meta estavam a 18 km mais ( pensava eu). 


Atravesso O Porriño e decido parar apenas onde houvesse um ponto de água, embora não tivesse reparado em nenhum até aqui, certo é que muito tive que caminhar, aqui e ali já me ia degustando com maduras uvas tintas, brancas e figos, ao sair da figueira tinha uma mesa a sombra com o primeiro ponto de água que tinha visto, estavam cerca de 30 graus e já contava com perto de 25 km nas pernas. Aí parei para comer o que carregava, a sobra da lasanha de ontem com umas chips, cenoura á dentada e chá de limão. Com o peso transferido da mochila para o estômago faço chego rapidamente a Mós. 


   O albergue em Redondela era já por mim conhecido mas apenas de passagem, tendo eu curiosidade de pernoitar nele, um edifício caricato no centro do lugar mas nesta etapa não me saía da ideia a sugestão feita pelos hospedeiros em Valença (aos quais se lerem este artigo lhes agradeço a meia hora de conversa), existe um novo caminho mais longo que se chama a "via espiritual" e a minha mente magicava uma maneira de a fazer.... exagerando nos kms hoje poderia cumprir esse caminho dentro do meu prazo, isso queria dizer juntar 18 aos 36 dando a módica quantia de 54 km e tendo eu de dar ao pé até as 21 horas.... a ideia parecia-me louca mas todavia possível e tal como sempre dizia aos outros colegas do caminho "há que sofrer para que a oferta seja válida" caso contrário é um esforço em part-time bem abaixo das nossas capacidades. 


   Chegado a Redondela o albergue estava completo, carimbo, encho a garrafa e sigo para oferecer então este sacrifício ao Santo, confesso que a ideia inicial deste caminho é de agradecer pela saúde que tenho, então há que usar-la ao máximo como sinal de oferta. 


Uso um pouco daquilo que vejo e penso tirar a pequena mochila da comida de trás e metê-la á frente, assim compenso o peso das costas e posso comer enquanto caminho, tinha então pelo menos 3 horas de passo largo, assim fiz, gostei e pondero fazê-lo mais vezes se necessário, os pés sofrem o mesmo mas folgam um pouco os abdominais e as costas por ir mais equilibrado. 


   Do lado espanhol muitas das indicações do tem por baixo a distância que falta até Santiago, tem o seu lado bom mas no geral é tortura e tento ao máximo desviar o olhar para essa informação, o mesmo acontece com as horas porque me quero perder no tempo, e para que isso acontecesse não trouxe relógio de pulso nem GPS, hoje dei por mim a pensar que horas seriam e o meu palpite foi 8:20 da tarde, puxei do telemóvel e vi que falhei por 3 minutos. 




   O sol já ia baixo e escondeu-se, as pernas num ritmo quase perpétuo permitiam avançar miraculosamente com a frescura da manhã e na ideia apenas pedia ao Santo que tivesse lugar no albergue, chego eram 21:15 quase 12 horas depois de iniciar estes certamente quase 60 kms tendo em conta o desvio de O Porriño e vejo a cara de espanto dos hospitaleiro pois já tinham fechado a conta antes as 22h previstas, quando lhe pergunto se tinham cama recebo um sorriso dizendo "quedan duas", a minha é a que sobrou. Como já era tarde e tinha comigo apenas uma lata de atum com umas bolachas e limão para um chá procuro uma massa ou arroz de sobra na cozinha e pela primeira vez não havia nada de sobra, valeu-me uma senhora que me ofereceu uma deliciosa tortilha. Escrever umas linhas e dormir que certamente dormirei bem de cansado. 



Um abraço peregrino, Samuel Santos. 

Dia 4, Ponte de Lima a Valença, 38 km em silêncio.

   7 para as 7 alguém decide pelos 18 do quarto e atreve-se a acender a luz, escusado será dizer que a partir daí ninguém dorme. Luisa pede-me um favor que aceito sem pensar, de a acompanhar nos primeiros kms mas sem falarmos, apenas tinha que tomar o pequeno almoço e seguir, partilho o pouco que havia. 
   Á saída da porta um sol radiante é uma salva de foguetes fizeram-me sentir não apenas abençoado mas também gente importante, seguimos por uma rua que no fundo tinha um nobre portão que guardava uma propriedade de muro baixo. 


  Desde dai seguimos sempre a cota de um rio mas este não corria em plano, subia íngreme pela serra acima. Chegando á povoação de Arcos, talvez por ser fim de semana, ouvia-se dos alto-falantes de uma igreja uma barulhente e distorcida música "pimba".  Paro para umas carcassas e queijo, bananas e permiti-me comprar um bolo no café,  pela primeira vez falei com o senhor do café, desde que começamos que eu e Luisa tínhamos por acordo não falar, apenas ficar em presença.

   A montanha ia a meio e tínhamos que a vencer, dai para a frente o trilho inclinava de tal forma que tínhamos que usar as pedras como degraus, planos inclinados á meia esquadria que quase poderiam ser escalados de 4. Chegamos á conhecida cruz de pedra para a qual eu trazia uma castanha que encontrei quando vinha com Alberto faz dois dias como oferta, deixei-a e seguimos. 




   Chegando ao topo todo o contemplamos à vista como prêmio é quebro o silêncio, convido Luisa a lanchar. Aí estavam um grupo de brasileiros, chegaram outros 3 americanos e 3 eslovacos, no fim do lanche despeço-me de surpresa de Luisa e digo-lhe que está entregue á montanha e peço-lhe que prometa que fica no albergue seguinte em Rubiães uma vez que ela tinha desmaiado no dia anterior, sigo o meu passo largo pois ficarei 19 km depois de Luisa. 




   Os 30 graus previstos faziam presença mas o caminho foi feito sem qualquer percalço, talvez por ter iniciado o dia um pouco abaixo do meu ritmo, a estrada era uma antiga romana, recheadas de fontes e tanques de lavar roupa e capelas, isoladas e quase sem trânsito haviam mais peregrinos que carros até chegar a Valença, onde antes do albergue páro noutro super para ter comida para o jantar, que teria que compensar o falso almoço. Pela noite decido ir dar uma volta pelas muralhas e fico com pena não ter vindo durante as horas de sol, terei oportunidade de voltar a passas nesta encantada cidade muralhada amanhã quando iniciar a marcha. 



um abraço peregrino, Samuel Santos.
  

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Dia 3, de Tamel a Ponte de Lima 25km, dia de descanso.

   Desperto com os sinos da igreja e conto 7 badaladas, decido que é cedo e volto a dormir mesmo com o barulho que os outros peregrinos faziam, acordo uma hora nais tarde e mais ninguem estava naquela camarata. Desço, encontro o Alberto e troco meia duzia de palavras com ele, ficou em promessa encontrar-nos mais tarde, faço-lhe reset ao podometro que contava 44 mil passos do dia anterior e segue caminho. Para o pequeno almoco tive pão com bananas já meladas e um capuccino instantaneo e estava pronto para o seguir. 


   Saio do albergue e volto a ver o pequeno e funcional que era, edificio novo e estudado para o efeito a destoar das velhas casas do sitio. Pego numa estrada asfaltada e comeco a desfazer a subida que tinha feito ontem á chegada, em frente um vale de onde ecoavam exitos de musica portuguesa, ora de Quim Barreiros a falar de gastronomia ora de Marco Paulo que me fazia recordar uma morena.


   O sol caia forte mas hoje por antecipação apliquei o protector solar no pescoço, uma vez que caminho pra norte a nuca esta horas exposta e não quero apanhar nenhuma surpresa, o dia hoje prometia em bom tempo e eu tambem decidi por gestão de etapa fazer hoje uma curta de apenas 25km para amanhã fazer duas de 19km cada até Valença.
   Encontro um grupo de brasileiros que mal os tinha visto no albergue junto a uma ponte antiga que nem parapeitos tinha, ao que parece as construções originais eram assim e quando se comprovava a sua resistencia em caso de cheias se faziam as paredes laterais. Alberto seguia mais á frente e caminhámos juntos uns 3km, ele também alguem experiente e caminheiro solitário, deixei-o para trás quando o telemovel dele tocou, certamento irei encontra-lo mais tarde.



   Chego pelas 13:30 a Ponte de Lima e tinha uma intençao, descançar e procurar uma praia fluvial, como o albergue ainda estava fechado e tinha comigo almoço segui para cumprir o desejo nas margens do rio Lima, cujas aguas eram de temperatura agradavel dado á largueza do seu leito, como o sol estava quente as quase 3 horas que ai estive souberam me pela vida.



   Chego ao albergue 45 minutos depous de abrir e as cerca de vinte mochilas que estavam encostadas á parede ja tinham entrado, havia uma fila de apenas dez pessoas. Quando reparo tinha Luisa á minha frente, tinhamos partilhado quarto no primeiro dia e cruzado duas vezes, como ela ficou no dia anterior em Barcelos a etapa dela hoje era pesada. Agarrou-me o braço e disse-me que nao se estava a sentir bem, nao tardaram os seus olhos a rolar e com a ajuda do casal italiano que estava a sua frente deitamo-la no chão desmaiada e elevamos as suas pernas, passado pouco tempo estava de volta.


   Subimos ao segundo piso e surpresa, o edificio era fantástico ficamos no piso de aguas furtadas com piso e tecto em madeira, recebe muito bem esta cidade os peregrinos. 
   Saio para mais uma visita a esta linda cidade, e não paro de me encantar por ela, não apenas o rio e sua ponte, importante construção do seculo XII mas tambem suas ruas completamente renovadas em pedra, seus edificios e suas gentes. 


   Decido parar numa mercearia comprar vinho, chocolate, amendoins e bolachas de aveia, como mesa um murete de jardim com vista para o rio, ponte e pôr de sol na montanha em frente, degusto-me com o aperitivo que tinha comprado e quando me dou conta já a garrafa estava vazia... quando já escuro me levanto noto que talvez tenha exagerado, uma coisa foi certa, arrastei-me até a minha cama de albergue e adormeci num profundo descanso.



Um abraço peregrino, Samuel Santos

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Dia 2, de Vilarinho a Tamel 36km

   Outro dia mas a hora foi a mesma, ouviam-se sacos, fechos zip, portas, da rua os pneus dos carros a calcarem paralelos e aviões a levantar voo, decido que é cedo e faço ronha por mais meia hora na esperança que o barulho termine e tenha um pequeno almoço em paz. 


   Levanto-me e subo ao piso mais elevado e tenho a visão do quão grande ente Mosteiro de Virães, recentemente restaurado e convertido em estalagem para quem tal como eu oferece algum do seu tempo para fazer uma viagem. 
   


   Início a caminhada e encontro pouco depois uma importante ponte do século XII mandada construir com o dinheiro da herança de um conde, sigo serpenteando ruas com o delicioso cheiro de umas morangueiros, para desviar os peregrinos da estrada nacional encurtámos ora aqui ora fazemos mais no trajecto seguinte, milheirais adentro debaixo de um abrasador sol, vali-me da pala da boina para me proteger de tão baixo sol. 


   Dia longo previsto, mas ao que parece não vai ser o único, queria não apenas chegar a Barcelos mas também seguir até ao Albergue onde fiquei, se bem que a cidade convidava a ficar, um centro de apoio ao peregrino com uma exposição de pintura, continuo para a igreja Matriz com azulejo azul e branco a cobrir as paredes, foto no tradicional Galo de Barcelos e centro da cidade. 



Cruzo a cidade e por ser quinta-feira  há o mercado semanal, maiores que as festas anuais da minha cidade, decido entrar na multidão e levo um choque de naftalina, couros e cores, corredores cheios de gente e negócio po todo o lado, daqui faltavam 9km para o destino. 



Andar a pé não se viaja tanto como vir de bicicleta mas o campo de visão muda a uma velocidade maior que aquela que se imagina, cruzam-se vales, pontes, e procuramos mais algo em nós, nem que seja a nossa própria sombra. 



   Um abraço Peregrino, Samuel Santos!

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Dia 1, Porto a Santiago a pé.


7 da manhã, toca o despertador e devolve-se a alma ao corpo que tinha caído no sofá horas antes, é tarde penso, tenho trinta minutos para chegar a gare e apanhar o expresso para o Porto, desta vez não para ir apanhar um voo mas sim para iniciar uma viagem a pé com o propósito de ir oferecer umas velhas sapatilhas cheias de histórias e glórias. 
Faz muito tempo que a vontade de voltar ao caminho latejava na minha ideia, único entrave era sempre o mesmo, falta de tempo. 


   Chego ao Porto, início a marcha até á Sé para comprar mais uma credencial do peregrino e obter mais umas informações dos potenciais Albergues existentes, recolho tudo e guardo o momento numa foto. 

   A cidade estava cheia, gentes, carros, música, pedintes, sotaques, entro nos Clérigos e tenho o primeiro presente da viagem, um concerto de Órgão ao vivo na igreja, depois carimbo e apresso o passo, já passava do meio dia e tinha quase 30km a fazer até ao albergue deponde escrevo estas linhas, Mosteiro de Vilarinho. 

   A saída da cidade é longa, carros, semáforos, confusão, só queria passar isto é chegar ao vazio mas para isso precisei de paciência. 


   O céu cerrado, nuvens escuras á moda do Porto mas sem sinais de chuva, fui prendado nos últimos kms com o sol que as consegui furar, as pernas em modo automático levavam-me aonde os meus olhos encontravam setas amarelas, a mochila às costas levavam a ligeireza de quem escolheu muito pouco para a trazer. 


   Chego ao Mosteiro ao final da tarde pelas 18:30 e finalmente encontro gente com intenções equivalentes a minha, uns 30 peregrinos já estavam a usufruir deste novo "oásis" que recentemente abriu portas aqueles que por aqui passam. 

Amanhã há mais, um abraço peregrino!!!

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

...4 anos depois, o bichinho não dá tréguas!!!

Parece que foi ontem que parti para uma aventura, pedalando louco numa viagem não apenas de grande valor cultural mas também pessoal, em modo solitário mas nunca sozinho.... hoje volvidos 4 anos estarei prestes a anunciar uma nova etapa?? fica a pergunta no ar!!!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

2011, ano de mudança!

   Aproxima-se a passos largos o final deste ano e se tivesse que o descrever numa só palavra seria mudança.    
  Olhando para trás, à exactamente um ano estava sem rumo após ter feito uma grande viagem espiritual e cultural em biciclete de Roma até esta bela cidade, o presente que pedia a Deus era uma mudança e posso dizer que ele caprichou naquilo que me colocou à frente... uma proposta de trabalho fora do país que me fez mudar de profissão, de amigos, de desportos, de hábitos, vivi em 8  habitações e mudei a esperança que tinha em aos 30 anos mudar radicalmente a vida.
  No fundo tinha tentado "sacudir" a vida para ver se tinha algum trunfo escondido e quando avistei esta oportunidade vi no imediato que pelo menos como experiência  seria algo a tentar, foi preciso um grande abanão para que a mente mudasse ao ponto de ganhar coragem e ir, por vezes é preciso virar a mesa, sair do conforto e partir para a aventura para se ganhar em experiência e força.
  Mudança essa que nem sempre é doce mas mudou as minhas amarguras, no fundo aceitando o trilho que foi apresentado trouxe-me mais felicidades que dificuldades, e se pensarmos que sempre que mudamos é para melhorar tudo temos que mudar as mentalidades para aceitar o pior e assim usufruir do bom que a mudança nos trás.
  Presentemente com a dor da distancia mas com o orgulho de um emprego e uma carreira, volto a passar em Alcobaça com olhos de quem quer voltar, assim que que o doce não compense as amarguras ou que encontre por cá uma igual oportunidade.
  Como dizia um filósofo, "se mudares o teu mundo, o mundo mudará".

Um abraço a todos, Samuel Santos.


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

De peregrino a hospedeiro.

Domingo, 7 de Novembro de 2010!

A viagem terminou, retorno aos poucos á vida social que tinha, reencontro-me com gente conhecida, acostumo-me aos velhos hábitos mas existem coisas que ficam.
Passou-se a semana a voar e tal como tinha convidado os amigos do caminho eles começaram a contactar-me confirmando a sua passagem aqui por Alcobaça, com vontade de ficar uns dias hospedados em minha casa, o que eu não contei foi que todos aparecessem num espaço de 24 horas.

Maxim foi o primeiro a chegar, pelas 15h, assim que se acomodou no beliche estava Julien a tocar á campainha. Num instante o meu pequeno apartamento ficou repleto de alforges, e a garagem de bicicletas, eh eh, foi bom ver o cenário fazendo-me reviver as emoções de viagem ainda em plena ressaca…



Embora eu saiba que as condições que os iria receber não seriam as melhores para o cidadão comum, estes hospedes eram diferentes, eu sabia como eles sentiam e pela minha experiencia tinha a perfeita noção que o nível de exigência deles é baixíssimo, só de terem um tecto em vez da tenda, com o conforto de um lar em vez de um albergue, luz, televisão, agua quente, internet, ausência de horários… isto fazia-os sentir em casa e “fiquem o tempo que quiserem” foi a minha palavra de ordem.

Tinham o convite da minha mãe para jantar, eles não estavam a aceitar mas com o sentimento de não querer incomodar, como eu sabia disso não foi nada difícil convence-los a mudar de ideias.

Maxim não precisava tanto mas a Julien pedi-lhe toda a roupa que ele tinha, incluindo a que ele estava a usar… e ele para mim:

e que roupa visto eu?...

–uma minha, a tua vai toda para a maquina de lavar…

O jantar foi cozido á portuguesa, uma iguaria para os meus amigos, no final do dia descansamos.

Na manha seguinte convidei a quem quisesse vir treinar um pouco ao campo de futebol do Ginásio de Alcobaça, Julien acompanhou-me. Á tarde fomos á reunião da câmara municipal e insisti que me acompanhassem, queria apresenta-los ao presidente e restante mesa.

Fomos muito bem recebidos, ao princípio senti que os colegas por não entenderem estavam um pouco apreensivos mas no final voltaram felicíssimos deste encontro.

Acabei por ser fotografado tal como os meus colegas, e se eu era noticia também eles o foram pois aparecemos em alguns meios de comunicação.



Nesta reunião decidiram por todos os presentes em assembleia, atribuir-me um patrocínio para fazer face aos gastos da viagem, disse-me o presidente Paulo Inácio que era bom ver iniciativas deste género no nosso concelho.

Já o vereador José Vinagre também abraçou esta iniciativa desde o inicio quando me ofereceram 2 equipamentos com o nome de Alcobaça para ir bem identificado. A todos o meu sincero e humilde obrigado por tudo desde o reconhecimento á simpatia.

Mais tarde chegaram Adrien e Sophie, molhados e cansados… fomos busca-los á frente do mosteiro e encaminhei-os rapidamente para um banho quente que eu sabia que até as suas almas pediam.

Tratei deles como se chegassem a uma colónia de férias que o meu apartamento se tinha tornado, combinamos em encomendar umas pizzas que toda a gente, incluindo eu, se deliciou!



Durante o jantar convidei-os a juntarem-se a nós 3 no dia seguinte a passear a Lisboa, tinha que ir lá visitar um amigo meu e trazer um kite… um brinquedo novo para mim para me divertir no mar em mais um desporto que faço, e como respondeu Adrien, “tenho que responder agora?” claro que não, vão dormir e amanha falamos!



Antes ainda fomos dar uma pequena volta pela vila de Alcobaça e bebemos café no típico Capador, desta vez já de barba feita, o encontro com o presidente da Câmara Municipal de Alcobaça tinha marcado o fim da minha viagem. Mais umas fotos em grupo para a eternidade com Magda que também se juntou ao grupo, muito giro estes momentos, agora com todos bem alimentados e de banho tomado, o ambiente era mesmo fantástico!



No final ficamos a olhar os itinerários dos mapas de Julien… a volta era simplesmente um espectáculo! Quando estávamos todos cansados, disse ao casal mais uma vez, fiquem na minha cama, hoje durmo eu no sofá que vocês merecem, aí é que eles ficaram mesmo espantados… eu insistir que ficassem lá era mesmo coisa que não lhes passaria pela cabeça, mas aceitaram!



Luzes apagadas e boa noite a todos!







Um abraço amigo, Samuel Santos

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Cumprindo rituais de peregrino.

Terça-feira, 2 de Novembro de 2010.






…hum, acordar na minha cama, meu espaço, tudo me rodeia… vou tomar o pequeno-almoço e como tinha vontade de encontrar mais amigos fui treinar um pouco de corrida á pista de atletismo no campo de futebol municipal de Alcobaça.

Tinha ainda rituais de viagem para cumprir, queimar as botas e outros objectos usados e gastos que lhe atribuíssemos um significado diferente ao comum, parece algo invulgar mas a necessidade de os cumprir chamava a minha atenção.

O tradicional é faze-lo em Finisterra, mas como vocês puderam acompanhar foi impossível faze-lo devido á tempestade que ai estava, mas certo é que Nazaré fazia muito mais sentido por várias razões.

Não foi mesmo nada difícil para mim trocar Finisterra pela Nazaré, esta terra faz parte de mim, o seu imponente promontório faz as minhas delícias e a todos que quer seja no verão ou no inverno por ali passam. Várias são as vezes que de bicicleta faço do miradouro um ponto de passagem e paragem obrigatório, para além disso, o discreto santuário da Nossa Senhora da Nazaré que conta a lenda ali ter aparecido a Dom Fuas Roupinho no ano de 1182, dá uma paz enorme àquele lugar.


Depois o farol tem o mesmo, ou até mais encanto que o de Finisterra, obviamente que muito menos de carga simbólica mas vendo bem a historia do outro, este está quase tão a oeste que outro, e o outro não têm os jactos de espuma na pedra d´inguilhim, que este faz em dias de tormenta.



A juntar a tudo isto foi a terra que numa segunda-feira 22, em Setembro de 1980 me viu nascer pelas alturas do meio-dia, este local por estar então tão próximo do meu real fim do caminho ganhava aos pontos para a queima dos objectos.

Escolhi então alguns objectos e parti até ao farol para cuidadosamente queima-los, tinha convidado uma pessoa e como aceitou acabei por não ir de bicicleta.

O céu estava limpo, o pôr-do-sol prometia ser esplendoroso e num cantinho onde não houvesse qualquer risco de incêndio, em cima de areia coloquei o que tinha trazido: um par de sapatilhas, uma carteira, uns boxers e uma garrafa de plástico.



Diz o ditado que a Deus não se dão coisas estragadas mas como entrega no final do caminho é uma excepção, o simbolismo destes baseia-se em deixar para trás o velho e começar uma vida nova, para alem disso eu tomei a liberdade de escolher minuciosamente pelo caminho quais seriam os objectos candidatos e anexar a eles um significado:

- as sapatilhas, o tradicional, aquilo que tantos passos e pedaladas deram durante o caminho;

- a carteira simboliza a dependência das pessoas pelo dinheiro, pelas posses e ao mesmo tempo a sua escravidão pelas mesmas, seria muito mais bonito as pessoas serem mais livres com menos encargos mas isso são escolhas de cada um…;

- a garrafa teve um papel importante na viagem, permitia-me comprar vinho e guardar nela aquilo que sobrava para o dia seguinte, quando não estava em uso era tão ligeira que não me custava transporta-la, assim devíamos fazer sempre escolher fardos leves que sejam úteis;

- por fim os boxers, tendo em conta que não fui assaltado passou-me várias vezes pela cabeça o que mais me faria falta caso fosse… imaginando que alguém me assaltava e levasse tudo, literalmente TUDO, recuava ao tempo de Adão e Eva e os boxers sim seriam a primeira coisa a sentir falta, aquilo que nos protege de sentir vergonha perante a sociedade, tudo o resto é elementar.



Reguei com álcool e deitei-lhe chama, não tardou em ver que não tinha precisado do combustível pela quantidade de plástico que ardia… o cheiro não demorou a rondar o local e durante mais de meia hora ficamos ali, e a meditar e a companhia a contemplar o deitar do sol no mar de oro…





Um abraço peregrino, Samuel Santos

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Dia 48. Chegada ao destino, ALCOBAÇA!

Segunda-feira, 1 de Novembro de 2010.


No quarto parecia ser ainda noite mas quando abri um pouco dos estores o sol que pelos furos parecia um potente holofote por estar a nascer ser nuvens.



Ao sair já o meu colega Rui estava acordado e pronto para fazer os 20 km até Fátima, para ele seria só mesmo a acompanhar pois a pesada bicicleta na subida ia travar e muito o ritmo normal do andamento dele, mas também era bom pois ele apenas queria fazer um pouco de recuperação de uma prova que tinha participado no dia anterior. Pela subida suave e constante até Fátima fomos metendo a conversa em dia e ao chegar deixou-me numa rotunda antes e voltou para casa.


Ao chegar ao Santuário tinha a minha mãe, irmã e irmão á espera para uma primeira recepção, ai fiz os rituais neste grandioso e pacifico local de culto Mariano onde a Virgem apareceu aos 3 pastorinhos.







Com o meu irmão segui pela serra de Porto de Mos direcção a Alcobaça e pela passagem por Alqueidão da Serra uma estátua branca fez-me lembrar Pietrasanta em Itália, afinal pela minha terra também há coisas fantásticas, não seria em mármore mas em rocha sedimentar e a figura da estátua era um caricato calceteiro partindo a pedra azul negro que apenas há aqui nesta região e é usada para fazer os desenhos nas calçadas à portuguesa.




Os 30 km até Alcobaça foram sempre a rolar com apenas 2 subiditas, e em pouco mais de uma hora desfrutando da bonita vista que a serra dos Candeeiros proporciona chegamos ao destino final, o grandioso Mosteiro de Alcobaça.

Antes tive tempo de cumprir a entrada típica dos turistas pela bonita rua das lojas, matando as saudades que deste sítio tão pisado por mim tinha, depois entrando no amplo largo do mosteiro vi o pequeno mas caloroso grupo que me esperava.



Aqui estavam as pessoas que consegui anunciar que neste dia chegava, família e amigos mas ao chegar dei-me conta de mais uma coincidência, as 12.30 h previstas eram também a hora do final da missa e como ritual o padre vir cumprimentar quem a ela assistiu acabei por ter o prazer de também o abraçar como a todos que esperavam, e ao grupo mais algumas pessoas que por coincidência aqui estavam a passar também se juntaram.

É um sentimento único após tanto tempo de privação da família e amigos, embora de livre vontade, abraçar de uma só vez tanta gente querida e conhecida, misto da emoção de ter conseguido chegar no dia pretendido ao local que marca o final de uma peregrinação.

Emoção forte que apenas cultivando e vivendo uma historia como esta que aqui fui descrevendo se pode ter, mas vale a pena, e muito!!!

Da frente do mosteiro percorremos os 100 metros que levam até ao meu espaço, e chegando sentia-me milionário, de emoções e tudo mais, “tenho uma casa” dizia, “uma cama, água quente, uma cozinha…”, tantas eram as coisas que novamente iriam entrar no meu uso do dia-a-dia que milionário talvez não chegue para descrever a mudança enorme que estava prestes a ter.

Ai almoçamos em família, todos menos o meu pai que algures pela Europa andaria na sua simplicidade de espírito conhecendo novos locais, cruzando rotas de tantos outros peregrinos…

Um abraço peregrino, Samuel Santos!